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domingo, 12 de abril de 2015

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
E O ENTERRO DA PETROBRAS

Celso Brum, sociólogo

(Publicado originalmente pelo Diário de Taubaté)

“O ódio, a infâmia, a calúnia, não abateram o meu ânimo. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida”. Getúlio Vargas, em sua carta–testamento.

Todos vieram. Não faltou ninguém. Afinal, o golpe ardentemente desejado, desde 2003, parece próximo de ser desencadeado. Na ilha paradisíaca (e privada) chegam iates esplendorosos, dos quais desembarcam os poderosos potentados. No aeroporto local, não param de chegar aviões particulares e imponentes helicópteros, dos quais descem os abonados e endinheirados, ávidos de poder.

O cenário é cinematográfico: uma mansão/castelo, no alto de uma leve colina, domina toda a paisagem. Ao seu redor, maravilhosa área ajardinada, com capricho digno do mais meticuloso pintor acadêmico. Na parte baixa, no centro de convenções foi construído com a única finalidade de reunir a nata das natas da direita. Pode-se dizer que a totalidade do reacionarismo está presente.

Os convidados especiais chegaram na véspera, os vilões de todos os tempos: Lex Luther, Dr. Silvana, o Espantalho, o Pinguim, o Duas Caras, o famosíssimo Darth Vader, Dr. No, Magneto e o Coringa. O vilão dos vilões fará sua entrada triunfal em breve e é aguardado com incontida emoção, para o discurso de encerramento. Enquanto ele não chega, estão programados vários workshops. Representantes do mundo político também já chegaram: a maioria esmagadora do PSBB, do PPC e do DIM-DOM, além de dezenas de sátrapas
do PMDD.

Atinatos e ativos necromantes invocaram, das trevas, os espíritos de Joseph Goebbels e de Maquiavel, que devem conduzir um dos mais importantes workshops, o da grande imprensa. E por falar da grande imprensa , os representantes autorizados – embora atrasados - chegaram juntos, caracterizando e explicitando o cartel de sempre. Tanto Maquiavel quanto Goebbels reconheceram, de pronto, que o uso das palavras suposto, supostamente, suposição e os verbos no futuro do pretérito – para esculhambar e destruir os adversários, sem correr o risco de processo por calúnia e injúria – é uma magnífica invenção da grande imprensa.

É que a grande imprensa não precisa de fatos (como antigamente os meios de comunicação precisavam): basta apenas e tão somente usar suposições, ilações, deduções e o futuro do pretérito. Goebbels e Maquiavel ficaram entusiasmados com as práticas da grande imprensa .Para os políticos, o workshop foi conduzido e dirigido pelo Duas Caras, o vilão adequado para a oportunidade. Duas Caras logo percebeu que não tinha muito a ensinar para aqueles especialistas em fazer defesas demagógicas da Democracia, enquanto trabalham, o tempo todo, para o golpe da direita. Os potentados, abonados e endinheirados dividiram-se em vários workshops, embora o mais procurado tenha sido o do vilão Darth Vader, a fim de colher seu autógrafo. Porque, em matéria de malvadezas, essas figuras solertes não precisam aprender mais nada.

Tudo transcorre dentro dos conformes, quando ouvem-se os inusitados, exorbitantes e indizíveis bramidos da mais moderna e possante máquina
voadora, da qual desce o vilão dos vilões, para delírio e mil sapitucas dos direitistas presentes. É ele, o rei dos vilões e imperador supremo da vilania nacional, o monarca absoluto dentre todas
as aves de rapina de todos os tempos, o único, absoluto, o intérprete máximo do direitismo, o magistral e famigerado Grande Rapinão.

Apesar dos seus mais de dois metros de altura e mais de 100 quilos de peso, o Grande Rapinão foi levado nos ombros daquela massa delirante e em êxtase sobrenatural, até a tribuna onde deve fazer o seu pronunciamento majestático, dando suas ordens e estabelecendo os rumos que a direita deve seguir. O Discurso do Grande Rapinão:

“Meus irmãos de fé golpista, meus caríssimos direitistas militantes e juramentados, queridos fariseus cínicos, prezadíssimos rentistas/sonegadores, admiráveis caluniadores e injuriadores, enfim, fabulosos auxiliares e colaboradores, sempre prontos para o golpe iminente. Como disse o Grande Rapinão, ou seja, como eu disse ‘O preço do golpe é a eterna conspiração’.

Em primeiro lugar, o meu reconhecimento ao extraordinário trabalho da grande imprensa, com sua diuturna divulgação do marketing do descrédito e do desespero, dizendo que tudo está ruim e que o Brasil está à beira do abismo. Assustados, os pobres de espírito e os inocentes úteis , deixam de consumir . Com a queda do consumo, diminui a produção e com a diminuição da produção, aumenta o desemprego. Com o aumento do desemprego, diminui o consumo, diminui a produção e aumenta o desemprego: instala-se a crise e a desestabilização do país. Está criado o ambiente propício para o golpe ou, não sendo possível o golpe, para a vitória da direita, em 2018. Nossos aplausos
para a grande imprensa.

Contribui para a desestabilização do país – é nossa firme convicção – a realização dessas passeatas, que muito impressionam os pobres de espírito e os inocentes úteis. É terrível ter de admitir que precisamos da participação dessa abortiva nova classe média. São estes ex-pobres – dócil massa de manobra – que tornam volumosas nossas manifestações. Vamos agradar e usar (usar, no sentido mais amplo da palavra) a nova classe média, para atingir os nossos objetivos. Atingidos os nossos objetivos (o golpe ou a vitória em 2018) vamos fazer com que essa gente volte à pobreza, de onde nunca deveria
ter saído. Essa gente anda querendo ocupar o lugar dos nossos filhos.

Vamos acabar com Enem, Prouni, Fies, cotas para negros, essas coisa toda que acaba tirando vagas dos nossos filhos nas universidades. Quando chegarmos ao poder, nunca mais se ouvirá falar do Ciência Sem Fronteiras, esse programa maldito que visa colocar os filhos dos pobres no controle das instituições, que são nossas secularmente e por direito divino. É evidente que não poderemos mostrar as garras, deixando que a inocentemente (ou, talvez, nem tão inocentemente, mas, apenas, estupidamente) útil nova classe média continue incapaz de enxergar e defender seus interesses e, portanto, continue colaborando com a gloriosa direita.

Enquanto estávamos no poder, as vagas nas universidades eram majoritariamente dos nossos filhos: tínhamos 3 milhões e 500 mil universitários. Hoje são quase 8 milhões, maioria dos quais, filhos da nova classe média, ex-pobres e futuros pobres. Isto é uma ameaça ao controle da sociedade, que a sapientíssima direita deve manter e só a sapientíssima direita deve exercer.

Ainda temos o poder real do país: controlamos a maioria das instituições. Se reconquistarmos a presidência da República, vamos ganhar na marra todos os poucos setores que a esquerda detém. E seremos implacáveis nessa reconquista.

Os militantes da esquerda andam tímidos. Isto é ótimo. Vamos passar o trator em cima deles, sem dó nem piedade. E vamos reduzi-los a pó de traque A esquerda deixou a rua para nós. Agora somos os donos das ruas: vamos usar e abusar.

Uma coisa é sumamente importante: destroçar a Petrobras, que nós queríamos que já fosse Petrobrax. Nós não conseguimos privatizá-la , a preço de banana, como fizemos com a Vale do Rio Salgado. Um dos nossos senadores tem falado em fatiá-la, para facilitar a privatização. Qualquer que sejam os meios, o fundamental é que a Petrobras seja privatizada. Para conseguir este objetivo, vamos desmoralizá-la e desvalorizá-la ao máximo. Já conseguimos que suas ações despencassem na Bolsa de Valores e que o valor da Petrobras seja um terço do que era há dois anos.

Levar a Petrobras à plena desvalorização significará o fim do présal. E o fim do pré-sal significará o fim do projeto – deste governo maldito – de melhorar a educação, tornando-a acessível à maioria dos pobres. Ora, os recursos do pré-sal investidos na educação dos filhos dos pobres fará com que muitos deles venham a ocupar os espaços dos nossos filhos, no comando das instituições que, hoje, controlamos em mais de 95%. Assim, é preciso acabar com a ameaça do pré-sal, desmoralizando, desvalorizando e, finalmente, privatizando a Petrobras.

O fim do pré-sal nos garante a continuidade do controle da maioria das instituições, ou seja, do poder real do Brasil. O poder deve permanecer em nossas mãos. É a elite que verdadeiramente está preparada para exercer o poder, e não a gentalha. Os pobres, para nós, são dados estatísticos, e a pobreza é, apenas, fatalidade histórica. Afinal de contas, a pobreza tem que existir, para que possamos ter mão-de-obra barata. Quem, lá de fora, ouvisse essas minhas palavras poderia considerar-me tosco, grosseiro. Sou sincero, verdadeiro e tudo isso é o que todos nós, da direita, pensamos. Nem sempre falamos: seríamos considerados nazistas. Mas os ideais da raça pura e da superioridade das elites são nossas incontestáveis certezas e aspirações.

Para reconquistar o poder em nosso país, é preciso acabar com a esperança. No lugar daquele povo confiante, nós queremos um povo triste e derrotado, terreno propício para a revolta sem causa. Portanto, é preciso decretar o fim da esperança para o povão, e o fim da esperança do povão deverá ser o começo da reconquista do poder para as elites. Nós matamos Getúlio Vargas, dificultamos o governo de Juscelino Kubitschek e tiramos João Goulart do poder. Agora, precisamos destruir Lula e Dilma Rousseff, são eles, principalmente eles, que impedem a nossa volta ao comando do país. Para tanto, a conspiração segue adiante e as calúnias e suposições nunca foram tão necessárias. Meus irmãos de fé golpista, caríssimos direitistas explícitos ou enrustidos, queridos fariseus cínicos, prezadíssimos rentistas/sonegadores, admiráveis caluniadores, com suas suposições demolidoras, enfim, terríveis cooperadores e conspiradores, assim falou o Grande Rapinão. Falei e disse”.
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Desta reunião, este escrevinhador que compareceu disfarçado de D. Quixote, lavrou a presente reportagem, na qual acreditarão os que tiverem juízo.