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segunda-feira, 27 de abril de 2015

VINTE ANOS DE MEDIOCRIDADE

Silvio Prado, professor

Geraldo Alckmin não sabe nada de educação e nem de sala de aula. Parece um aventureiro com quatro passagens pelo governo do Estado mais poderoso do país, São Paulo. Se tivéssemos uma imprensa livre, um sistema judiciário despartidarizado e o Brasil possuísse um mínimo de civilização, Alckmin não passaria de um anônimo vereador de sua cidade, Pindamonhangaba. Ou estaria com os direitos políticos cassados.

Diante de uma justiça que mereça esse nome, o governador já teria respondido pelos crimes cometidos por sua polícia, inclusive o ocorrido no dia 12 de janeiro de 2012, no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos. Sob suas ordens, uma brutal tropa de choque cometeu crimes terríveis e chocou a humanidade. Sua política de segurança pública, baseada no encarceramento coletivo e sistemático de gente pobre, notoriamente negra e mulata, mostra-se bastante tolerante com o crime organizado, que age com desenvoltura dentro dos presídios paulistas.

A máquina pública de paulista é caótica e não espelha a importância do Estado no conjunto da nação. São Paulo, considerando a pujança de seus números econômicos, socialmente é uma farsa. A pobreza está em toda parte e o governo, ausente, possui um discurso rápido e massivo - e mentiroso - tentando provar o contrário.

Em 20 anos de governo tucano, o Estado não mudou de rumo. O mesmo ideário malufista de botar a ROTA na rua é cumprido fielmente por Alckmin. Mais vivo do que nunca, esse aparato repressivo ai está, contrastando em vitalidade com setores dos serviços estatais condenados à morte, como a educação pública.

Alckmin não abre mão do modo de administração neoliberal. Seus ajustes penalizam o funcionalismo público e o faz viver curvado sob salários humilhantes e condições de trabalho deterioradoras da saúde.

Os mais de quarenta milhões de paulistas, iludidos pela mentirosa eficiência tucana, parece não perceber o tamanho do engodo em que estão metidos: queda na qualidade da educação, crescimento da violência policial, escândalos como trensalão, desvios de verbas da FDE, centenas de obras superfaturadas nos prédios da rede de ensino, hospitais entregues a um conglomerado de organizações sociais.

Se não fosse uma Assembleia Legislativa amestrada por migalhas de verbas do orçamento público, Alckmin já teria passado por investigações sérias. Contanto com deputados sem nenhum caráter - como o Padre Afonso Lobato - ele possui maioria na casa, aprova e esconde o que quer e da maneira que quer.

Do lado de fora, uma imprensa subserviente e muito bem recompensada com polpudas verbas publicitárias, faz o papel de escudo que impede que manchas e borrões do governo tucano cheguem aos olhos da população. Tem ainda um setor do judiciário, sempre bonzinho e conivente com o governador, o que pode ser expresso na figura de um certo promotor que guardou durante anos na gaveta denúncias vindas do exterior sobre o escândalo conhecido como Trensalão Tucano.

Dentro desse esquema de excessiva proteção, a escola pública paulista permanece pior do que nos tempos de Maluf e tão ruim como nos tempos da ditadura. Alckmin, juntamente com Covas e Serra, em vinte anos construiu um cenário de farsas e mutretas pedagógicas que emperraram o ensino público e desqualificaram o professor. Implantou a promoção continuada, que promove continuamente o analfabetismo funcional. Inventou projetos e mais projetos apenas para inglês ver e eleitor idiota acreditar. Inventou um fiasco chamado Escola da Família e outro fiasco chamado de Escota de Tempo Integral. A Escola de Tempo Integral para o Ensino Fundamental, já foi para o espaço. A do Ensino Médio, já está se preparando para o mesmo.

Quanto ao salário do professor, ele o aboliu ao adotar o esculacho da meritocracia e a prática do bônus. Na verdade, o bônus é uma maneira nada delicada de chamar todo professor de idiota, pois só um idiota assumido pode enxergar vantagens num procedimento que desqualifica a valorização do salário e o empurra para uma miséria irreversível após o momento da aposentadoria.

Quem entrar hoje numa escola pública paulista vai descobrir um professor meramente tarefeiro e cumpridor de ordens emanadas de gente que sabe cada vez menos de educação, mas extremamente truculenta em impor práticas burocráticas que geram cortes de investimentos e aprofundam a falta de qualidade do ensino.

Esse professor não tem perspectivas profissionais, mesmo que seja efetivo. Se for o chamado professor O, pior ainda. Só mesmo um governo que deseja o fim do ensino público - ou sua privatização descarada - pode criar o precedente do professor O, cercado de quarentenas e duzentenas, restrições legais (porém imorais) e assédio moral estimulado desde o principal gabinete da Secretaria da Educação.
Enfim, Geraldo Alckmin não sabe nada de educação. Do ponto de vista dos educadores e das necessidades reais da população, é um governador medíocre, administrador incompetente, incapaz de planos e projetos que resgatem a população do estado mórbido provocado pela ausência de políticas públicas consistentes na área da educação e da cultura.

Infelizmente, é esse o governador e o governo que temos, cercados por uma conjuntura que exige mudanças e pede o máximo de empenho dos que desejam construir um mínimo de relações civilizadas entre o Estado e a sociedade.