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segunda-feira, 4 de maio de 2015

DESCULPAS QUE NÃO DESCULPAM

Silvio Prado, professor

O PSDB está tentando justificar o massacre de Curitiba e livrar a cara de Beto Richa. Gente como o senador Aloísio Nunes já pôs a boca para funcionar. A desculpa de sempre: a PM do Paraná simplesmente agiu para garantir o cumprimento da lei e da ordem. Portanto, todos os excessos são perdoáveis e justificados.

Essa gente não vê, por exemplo, nenhum problema e nada de anormal na presença de cães da raça Pit Bull mordendo professores e fazendo sangrar um cinegrafista de uma rede de televisão. Nada de anormal no pavor provocado numa creche próxima ao conflito onde crianças, sufocadas pelos efeitos do gás de lacrimogêneo e spray de pimenta, entraram em desespero.

Quase duas centenas de manifestantes tiveram o corpo vazado ou rasgado por balas de borracha. Outros viram o diabo pela frente depois de aspirar a fumaça do tal gás lacrimogêneo. Ou se arderam sob o spray de pimenta. Sem contar as bordoadas e sufocantes jatos de água.

Olhando as cenas das agressões, gravadas e disponíveis nas redes sociais, causa vergonha e repulsa. Também repulsa e vergonha causam as justificativas dadas para o massacre dos professores. Segundo o moleque Beto Richa (foi com esse termo que o senador Requião definiu o governador do Paraná), havia black blocks infiltrados no movimento. Outros defensores da ação policial criminosa enxergaram a mão do PT e seus “agitadores profissionais” como instigadoras do tumulto generalizado.

Diante desses argumentos idiotas e mentirosos, a PM do Paraná, como um grupo santificado que pode ser canonizado a qualquer momento pelo papa Francisco, saiu da contenda mais limpa do que entrou.

Pelas redes sociais, os mesmos argumentos pobres e desesperados, coisa de uma gente que tem noção do crime cometido contra trabalhadores que apenas tentavam impedir que seus direitos fossem garfados por um governo irresponsável.

Além de tentar o impossível, ou seja, isentar Beto Richa da responsabilidade pelos absurdos praticados por seus jagunços fardados, o que se pretende também é impedir que certas coisas óbvias ganhem ainda mais destaque, como a necessidade urgente de desmilitarizar a polícia brasileira.

Só um capitalismo selvagem e socialmente predatório pode admitir que um aparato policial seja capaz de praticar tantos crimes em tão curto espaço de tempo. O que se gastou de munição nas últimas ações da policia militar em Curitiba certamente é muito mais do que se gasta em munição em países realmente civilizados, onde muitas vezes a polícia atravessa um ano sem desferir um tiro ou de cometer atos realmente de violência contra qualquer cidadão.

Não há dúvida que é preciso que a sociedade use os meios legais disponíveis para punir os excessos autorizados pelo “moleque Richa”, mas é preciso também que a sociedade use as cenas e o desastroso desempenho policial no Paraná para fazer acelerar a discussão e as decisões que provoquem a desmilitarização da polícia em todo o Brasil.