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quinta-feira, 7 de maio de 2015

GUERRA BRASILEIRA

Silvio Prado, professor

Do interior do apartamento, o menino ouvia o barulho dos tiros disparados de outro lado do morro. Pela tevê, ficou sabendo que a polícia, agora ainda mais reforçada, fechara todas as entradas da favela onde grupos de traficantes armados permaneciam entocados desde o dia anterior.

Não havia para aquela criança coisa mais terrível que o barulho de tiros, mesmo distantes, provocando a desconfortável sensação de insegurança e medo.

Entre as orientações recebidas dos pais estava a de não ficar muito próximo das janelas dos quartos ou da sala, alvejadas recentemente durante um dos muitos tiroteios ocorridos entre policiais e traficantes. É certo que dessa vez a batalha estava se dando um pouco longe dali, mas não convinha facilitar as coisas.

Mesmo com tantas recomendações, ele não resistia e, rápido, uma vez ou outra acabava abrindo uma das janelas, principalmente aquela de onde se podia ver em algum lugar distante céu e mar se fundindo num azul intenso.

Um pouco antes das dez, o irmão mais novo acordou e foi logo perguntando se naquele dia seria possível ir à escola. ”Ainda não”, respondeu. “Por que não?” “Por quê? Escute só o barulho lá fora”.

Desanimado, restou ao irmão menor ir até a cozinha e tomar o seu café da manhã. Depois, sabendo que o outro já mantinha os olhos colados na tela do computador, ficou mesmo na cozinha, ligou o pequeno televisor ali instalado e atravessou o resto da manhã pulando de um canal para o outro em busca de desenhos animados que não fossem a repetição de programações anteriores.

Entre uma e outra pausa, os tiros prosseguiam. Quase próximo do meio dia, o telefone tocou. Era a mãe das duas crianças que, do trabalho, ligava para perguntar se tudo estava bem, se o irmão mais novo já havia acordado e, “pelo amor de Deus”, que não ficassem próximos das janelas e, por motivo algum, fossem brincar na rua.

Naquela semana, disse a mulher, até que tudo se acalme, nenhum deles deveria ir às aulas.

Do outro lado da linha, a mãe ouviu a voz do filho menor perguntar quando ela estaria de volta. “Antes das nove, meu filho.” A conversa parou por aí e os meninos voltaram para a frente do computador e da tevê, condenados a passar o restante do dia entretidos com joguinhos fúteis ou engolindo dúzias de comerciais e desenhos animados, enquanto, seguidas vezes, sob o impacto assustador dos tiros cada vez mais próximos, eles eram, à força, trazidos para a insegurança da vida real.