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quinta-feira, 28 de maio de 2015

O ÓDIO DE TODO DIA

Silvio Prado, professor

O ódio está mais vivo do que nunca. Onde existe fome, antes existe o ódio gerando a fome. Onde existe analfabetismo, lá está ele na raiz dessa escuridão. Sem o ódio pelos mais pobres, não haveria concentração de renda. Sem o ódio pelo negro, não haveria o racismo. Sem o ódio pelo índio, não havia o avanço sobre suas terras e nem a destruição de sua cultura.
Sem o ódio, não haveria a mentira da notícia forjada para destruir reputações e negar obras que beneficiam indefesos e pobres. Sem o condimento do ódio, o Jornal Nacional teria apenas 1/3 do seu tamanho habitual. Sem os impulsos do ódio, muitos pastores e religiosos seriam homens serenos e silenciosos e viveriam sua fé de forma inteligente e profunda.
Enfim, o ódio é um dos artífices da exclusão social e da morte de muitos que exemplificaram o sentido da paz em suas vidas. Sem o ódio da elite religiosa judaica, Jesus não morreria dependurado numa cruz. Sem o ódio aos negros e seus direitos, Luther King não cairia sob balaços. O próprio John Lennon não seria morto.
Toda coisa sublime e bela, se provoca encanto e abre caminhos novos para a humanidade, num grande número de pessoas desperta forças que se confrontam com sentimentos que transformam e libertam. Como avesso do amor e do sublime, o ódio só provoca tragédias na vida pessoal ou na vida coletiva de um país.
O ódio, portanto, está na raiz de toda exploração social e de todas as formas de repressão que buscam impedir que a humanidade caminhe na direção de uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma utopia, mas um fato real.
Esse ódio precisa ser removido da prática diária que garante poder aos que mandam e, do outro lado, garante momentos (quase sempre eternos) de puro inferno a quem não aceita ordens e decisões que só referendam ao mundo de injustiça suportado por tantos.
Não é preciso cara feia para demonstrações ou aplicação do ódio, mas frieza, muita frieza, sistemática frieza, para impor interesses que contrariam direitos e fere muitas vezes de morte a dignidade da maioria.