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domingo, 7 de junho de 2015

ANTES DA PRÓXIMA INVERSÃO

Silvio Prado, professor

Lola e Junior deitaram e rolaram nas mudanças feitas no trânsito central da cidade. Tratado como boiada, o povo perdeu a batalha para o automóvel. Em nenhum momento a dupla tucana pensou além dos indivíduos de quatro rodas. Em resumo, cidadão em Taubaté é aquele que está motorizado, mesmo que os demais, tendo apenas sola de sapato, paguem preço muito alto pela buraqueira do asfalto, semáforos e todo tipo de poluição que motores cospem a cada metro de avenida.

O resto é apenas o resto, ou seja, milhares de figurantes que compõem a maioria que habita a cidade, mas não apita e nem decide nada. Puro animal sobre duas patas. Que fala, mas não diz nada. Anda mas não chega a lugar nenhum. Tem nome mas aceita ser chamado de otário.

Lola e Junior ainda estão deitando e rolando com o trânsito invertido. E isso não é nada divertido. Ganharam pontos preciosos com alguns motoristas. Irritaram por alguns dias os condutores e cobradores da ABC, torraram temporariamente o saco da UNITAU com ponto de ônibus bem no focinho da Faculdade de Direito. A UNITAU chiou e ficou fora do incômodo, enquanto a dupla estendeu a mão e mostrou solenemente aquele “dedo do meio” para os pobres, idosos, deficientes, carentes e fodidos em geral.

Porém, toda a grosseira maquiagem não resolveu o problema do trânsito taubateano. O caos está na ordem do dia em todos os lugares. Em alguns, especificamente é o próprio inferno. Tem automóveis demais, motos demais e ônibus de menos, enquanto pouquíssima gente anda faturando muito – muitíssimo - com essa prensa de fazer doido.

Taubaté é Taubaté, terra das bandeiras, bandalhas e bandalheiras, onde o povo não tem pele, mas couro engrossado por décadas de bordoadas e cutucões sistemáticos da vara do carreiro. Mesmo fazendo parte de um todo, parece que somos diferentes de tudo. E não somos.

Porém, em alguns lugares do país o povo, mesmo sempre ocupando o lugar subalterno que também ocupamos, obriga em determinadas horas o corvo de plantão a mudar certos procedimentos e até faz diminuir o mal cheiro da carniça. Por aqui não. A carniça continua mais podremente acentuada, mas o corvo imponentemente permanece o mesmo, com suas bicadas arrogantes, delirantes, estressantes, fazendo papel de moderno e competente na arte de vender mutretas e esconder mentiras.

Enfim, assim caminha a humanidade, agora sobre quatro rodas e sem olhos para o retrovisor. E o que vier pela frente, caso alguém deseje, poderá até ser chamado de futuro. Portanto, como disse outro dia um pastor fundamentalista cheio de provérbios e palavras espiritualizadoras: fodam-se!