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segunda-feira, 15 de junho de 2015

GENTE GROTESCA E PERIGOSA

Silvio Prado, professor

O que incomoda certos pastores fundamentalistas é que Jesus não permitiu que apedrejassem Madalena, aquela “vadia, prostituta, rampeira, puta mesmo”, que dava pra qualquer um em troco de uma moedinha ou qualquer 1,99 de sua época. Certos fundamentalistas – católicos e evangélicos - inconscientemente não perdoam Jesus pelo mau exemplo.

Se o Mestre fosse mais observante da lei e limitasse ao menos um pouquinho a sua misericórdia e fizesse vista grossa diante daquele fato, por certo hoje as coisas seriam bem diferentes. Ora, precisava ser tão rigoroso assim no exercício de sua nova moral? Viu só no que deu?

Que ele não pegasse uma só pedrinha para atirar na cara da fulana, mas se consentisse no fato já estaria bom demais e evitaria aos fundamentalistas os constrangimentos de agora, nessa época de absurdos, em que gente expõe o corpo, faz dele mercadoria e, ainda, avançando muito mais, liberaliza-o de tal forma que uns já acham que podem legalmente fazer até aborto e outros – que não são poucos – entendem que homem pode servir-se de corpo de homem, e mulheres podem fazer o mesmo com o corpo de outras mulheres.

Nada mais sutil e inteligente afirmar que todo cristão tem que odiar o pecado e jamais o pecador. Mas separar uma coisa da outra não é para qualquer um, muito menos para tipos que não conseguem ainda entender que religião é religião, Estado laico é Estado laico, que o mundo comporta diversidade e diversidade pede tolerância, como fez um tal de Jesus que produziu e bebeu vinho, andou no meio de gente pobre, desregrada e fodida, transgrediu a lei curando no sábado, teve um amigo leproso e disse para os fundamentalistas daquele época ouvir e pensar: a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus.

Mas eles ouviram, pensaram e não entenderam porra nenhuma. Porque pensar é uma coisa complicada para quem tem o corpo no século XXI e os neurônios guardados numa caixa craniana que antecedeu o próprio nascimento de Jesus. Por isso, tão grotescos como antes, estão aí empunhando a Bíblia como quem empunha uma metralhadora, pedindo que caia fogo dos céus sobre os considerados ímpios, como Pedro – sincero, porém tosco - pediu a Jesus numa tarde em que, entrando numa aldeia, nenhum milagre foi feito devido a indiferença do povo que lá vivia. Jesus olhou bem para a cara de Pedro e disse sem perda de tempo que o apostolo não sabia o que estava dizendo ou pedindo. Mas poderia também ter dito: se afasta de mim, Satanás.

Mas não disse. Ele sabia o quanto Pedro era um sujeito tosco e não tinha ainda entendido bem sua missão. O apostolo era só um pescador num processo de evolução ou libertação espiritual. Era preciso ter paciência com ele, bem diferente de uma certa gente engravatada e rudimentar, porém bem nutrida pela teologia da prosperidade, dízimos pontuais arrancados de gente miserável e mordomias parlamentares ofensivas aos pobres.

No caso de Madalena, ainda bem que Jesus, antecipando em séculos a defesa em torno dos direitos que a mulher tem sobre seu corpo, não consentiu no apedrejamento e fez aquele bando de pastores enfiar o rabo entre as pernas e voltar para casa frustrados e cabisbaixos. Foram berrar aleluias em outra freguesia, mas voltaram logo depois a aporrinhar novamente o mestre.

Se Jesus tivesse consentido ou atirado mesmo que fosse uma pedrinha na prostituta, que certamente vendeu o corpo também a muitos pastores daquela época, essa gente que na terça-feira, 3 de junho, invadiu a Câmara Federal com suas orações, violentou a Constituição e atacou o estado laico, já teria aumentado em muito a devastação ambiental com tanta árvore arrancada para fogueiras onde seriam exterminados homossexuais, prostitutas e todos os que confrontam o fundamentalismo grotesco que preenchem suas vidas.

Jesus rejeitou o apedrejamento de Madalena não só em função da proposta de amor e respeito ao próximo que trazia, mas também porque, extremamente precavido e dono de uma sabedoria impar, sabia muito bem que tipo de gente, no futuro, usaria seu nome e sua palavra para justificar coisas tacanhas, grotescas, absurdas e contrárias a tudo o que ele fez e pensou.