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segunda-feira, 1 de junho de 2015

PAULINHO CASTRO

Silvio Prado, professor

Cresci na rua Emilia, Chácara do Visconde, bem próximo da casa onde morava Paulinho Castro, também conhecido como Paulinho Carioca, talentoso baterista e cantor afinadíssimo que ontem,domingo, infelizmente faleceu.

Paulinho nasceu num berço onde a música era vivenciada e estimulada diariamente pelo talento de seus pais. Sua irmã, Cidinha Castro, também trouxe a marca registrada da família, ou seja, o dom de cantar e espalhar felicidade e encantamento, sempre de forma competente e extremamente afinada.

Na década de sessenta, enquanto a criançada da rua Emilia corria atrás de uma bola, atrás de algum balão, ou se relacionava por meio das inocentes brincadeiras daquele tempo, lá da casa do Seo Carioca (pai de Paulinho e Cidinha Castro) vinha o som afinado de um conjunto musical ensaiando para algum baile de final de semana.

Nunca esqueço, por exemplo, da voz de Cidinha ensaiando “Arrastão”, um dos primeiros sucessos de Elis Regina. Uma delicia. Não me lembro da data e nem o ano. Sei apenas que naquele bairro pobre, rua Emilia ainda sem asfalto (com uma enorme valeta fazendo correr a água de uma mina), além de operários da CTI e da Juta Fabril indo ou vindo do trabalho montados em suas bicicletas, existia uma casa e uma família entregue ao grandioso ofício da música. Tudo muito simples, bonito e talentoso.

Só depois de crescido é que fui capaz de entender e valorizar a dimensão daquela família extremamente musical, que se enquadrou perfeitamente num dos versos mais preciosos de uma canção de Milton Nascimento: “todo artista tem de ir onde o povo está...” Uma riqueza que só a maturidade consegue dimensionar com alguma precisão.

No meu entendimento, a família Castro, como a família Clemente Gomes, da Estiva, tem a música como sua maior identidade, algo que parece brotar naturalmente e, como se fosse um grande e imprevisível rio, segue depois inventando caminhos e desinventando a tristeza que habita a vida de muita gente.

Tudo isso sempre esteve em minha memória e agora se aguçou diante da notícia do falecimento de Paulinho Carioca, uma grande pessoa, um cidadão feliz e, creio, desde criança arrebatado pelos mistérios (acho que divinos) da música, esse algo imprescindível e cada vez mais necessário para acrescentar humanidade ao próprio homem.

Que Paulinho, sem nunca perder o ritmo e a afinação preciosa, descanse em paz. E que a certeza dessa paz ajude a consolar e a aplacar a dor de seus familiares e amigos.