Páginas

segunda-feira, 6 de julho de 2015

HERANÇA DA DITADURA

Silvio Prado, professor

O que não faltou nos porões da ditadura militar, além de choque elétrico, pau de arara, cadeira do dragão, foi a prática permanente do abuso sexual e estupro sobre as militantes das várias organizações que resistiram ao regime truculento que durante 21 anos se impôs ao país. A Lei da Anistia, do jeito que foi feita e imposta, permitiu que um bando de animais seguisse sua vida impunemente. Esses animais perseguiram, prenderam, torturam, mataram, desapareceram com corpos e, rotineiramente, abusavam e estupravam militantes presas.

Hoje, seus herdeiros, e também defensores da volta do regime militar, não perdem a oportunidade e mostram que não abriram mão de posturas e métodos próprios daqueles sombrios tempos. Como nenhum estuprador da ditadura foi punido, e como também o primata Jair Bolsonaro continua intocado, mesmo tendo prometido, durante uma sessão na Câmara Federal, estuprar a deputada Maria do Rosário, outros da mesma laia seguem na defesa da prática criminosa.

O que fizeram com a presidente Dilma, através do adesivo insultuoso que circula pelo país desde a semana passada, não significa outra coisa a não ser, por outra via, a continuidade de um processo de violencia sexual contra a mulher. O adesivo não fere apenas a dignidade da presidente, mas fere a todas as mulheres e os conceitos de civilização que uma sociedade precisa preservar para não retroceder na direção da barbárie.

Os autores desse crime precisam ser punidos exemplarmente, já que seus mestres, estupradores dos tempos da ditadura, ou frequentadores da Câmara Federal, caminham na luz do dia,como se fossem cidadãos de mãos limpas e dignos de respeito. Para aqueles que absurdamente consideram o tal adesivo algo que precisa ser tolerado pois, afinal, estamos numa democracia, reproduzo algums depoimentos de mulheres torturadas e estupradas nos porões da ditatura, exatamente para mostrar onde essa gente que produziu o adesivo pretende chegar ou, melhor dizendo, sonha retornar.

O adesivo não é só um elemento que lembra atrocidades cometidas nas salas de tortura, mas tambem é um sinal, um aviso sem meias palavras, do que pretendem os herdeiros dos estupradores da ditadura e os fãs de Jair Bolsonaro.

Segue, resumidamente, alguns depoimentos - aterradores - extraídos do livro da jornalista Tatiana Merlino - Direito à memória e à verdade : Luta, substantivo feminino, lançado pela Editora Caros Amigos, em 2010, e que ajudam a revelar quem são esses que propõe a volta do regime militar e seus métodos animalescos.

“Muitos deles vinham assistir para aprender a torturar. E lá estava eu, uma mulher franzina no meio daqueles homens alucinados. Eu vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: ‘Você vai parir eletricidade’. Depois disso, me estuprou ali mesmo. Em todas as vezes em que eu era pendurada, eu ficava nua, amarrada pelos pés, de cabeça para baixo, enquanto davam choques na minha vagina, boca, língua, olhos, narinas. Tinha um bastão com dois pontinhos que eles punham muito nos seios. E jogavam água para o choque ficar mais forte, além de muita porrada. O estupro foi nos primeiros dias. Depois do estupro, houve uma pequena trégua, porque eu estava desfalecida.. Me tratavam de ‘puta’, ‘ordinária’.” (DULCE MAIA, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era produtora cultural quando foi presa na madrugada de 26 de janeiro de 1969, em São Paulo (SP).Hoje, vive em Cunha (SP), é ambientalista, dirige a ONG Ecosenso e é cogestora do Parque Nacional da Serra da Bocaina.)

“Bateram-me no rosto até eu ficar desfigurada. O ‘Márcio’ (um torturador) invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se o ‘Camarão’(também torturador) havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros.” ( INÊS ETIENNE ROMEU, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), era bancária quando foi presa em São Paulo (SP), em 5 de maio de 1971. Recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos 2009, na categoria Direito à Memória e à Verdade. Inês Etienne, depois de tanto sofrimento,aos 72 anos, faleceu na manhã de 27 de abril do presente ano.).

“Fui levada para o Dops, onde me submeteram a torturas como cadeira do dragão e pau de arara. No pau de arara, davam choques em várias partes do corpo, inclusive nos genitais. De violência sexual, só não houve cópula, mas metiam os dedos na minha vagina, enfiavam cassetete no ânus. Isso, além das obscenidades que falavam.” (IGNEZ MARIA RAMINGER, ex-militante da VAR-Palmares, era estudante de Medicina Veterinária quando foi presa em 5 de abril de 1970, em Porto Alegre (RS). Hoje, vive na mesma cidade, onde é técnica da Secretaria Municipal de Saúde.)

“Um dia, eles me levaram para um lugar que hoje eu localizo como sendo a sede do Exército, no Ibirapuera. Lá estava a minha filha de um ano e dez meses, só de fralda, no frio. Eles a colocaram na minha frente, gritando, chorando, e ameaçavam dar choque nela. Sofri torturas no pau de arara, na cadeira do dragão, levei muito soco inglês, fui pisoteada por botas, tive três dentes quebrados. Éramos torturadas completamente nuas. Com o choque, você evacua, urina, menstrua. Todos os seus excrementos saem. A tortura era feita sob xingamentos como ‘vaca’, ‘puta’, ‘galinha’, ‘mãe puta’, ‘você dá para todo mundo’... Algumas mulheres sofreram violência sexual, foram estupradas. Mas apertar o peito, passar a mão também é tortura sexual. E isso eles fizeram comigo. Eles também colocaram na minha vagina um cabo de vassoura com um fio aberto enrolado. E deram choque. O objetivo deles era destruir a sexualidade, o desejo, a autoestima, o corpo.” (ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA, ex-militante do Partido Operário Comunista (POC), era estudante de Sociologia e professora do ensino fundamental quando foi presa, em 11 de julho de 1971, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é pró-reitora de extensão e cultura e professora titular de saúde coletiva da Universidade federal de são Paulo (UNIFESP)

“A primeira forma de torturar foi me arrancar a roupa. Lembro-me que ainda tentava impedir que tirassem a minha calcinha, que acabou sendo rasgada. Com tanto choque e soco, teve uma hora que eu apaguei. Quando recobrei a consciência, estava deitada, nua, numa cama de lona com um cara em cima de mim, esfregando o meu seio. Era o Mangabeira [codinome do escrivão de polícia de nome Gaeta], um torturador de lá. A impressão que eu tinha é de que estava sendo estuprada. Aí começaram novas torturas. Me amarraram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido. Fiquei nessa cadeira, nua, e os caras se esfregavam em mim, se masturbavam em cima de mim. Depois fui para o pau de arara. Você ficava nua como frango no açougue, e eles espetando seu pé, suas nádegas, falando que era o soro da verdade.” (MARIA AMÉLIA DE ALMEIDA TELES, ex-militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), era professora de educação artística quando foi presa em 28 de dezembro de 1972, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, é diretora da União de Mulheres de São Paulo e integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos 2008, na categoria Defensores de Direitos Humanos.)

“Fomos colocadas na solitária, onde ficamos por três meses, sendo tiradas apenas para sermos interrogadas sob tortura. Era choque elétrico, pau de arara, espancamento, telefone, tortura sexual. Só nos interrogavam totalmente nuas, juntando a dor da tortura física à humilhação da tortura sexual. Eles aproveitavam para manusear o corpo da gente, apagar ponta de cigarro nos seios. Eles tinham um cassetete cheio de pontinhos que usavam para espancar os pés e as nádegas enquanto a gente estava naquela posição, de cabeça para baixo. Quando eu já estava muito arrebentada, um torturador me tirou do pau de arara. Eu não me aguentava em pé e caí no chão. Nesse momento, nessa situação, eu fui estuprada. Eu estava um trapo. Não parava em pé, e fui estuprada assim pelo sargento Leo, da Polícia Militar.” (GILSE COSENZA, ex-militante da Ação Popular (AP), era recém formada em Serviço Social quando foi presa em 17 de junho de 1969, em Belo Horizonte (MG). Hoje, vive na mesma cidade, onde é assistente social aposentada.)

Eu não tenho dúvida: o adesivo insultuoso contra a dignidade de Dilma,e contra a dignidade de toda mulher, é uma espécie de continuidade do que foi feito nos porões da ditadura. Como nada foi punido pela farsa da anistia, segue propagado pela boca imunda do Bolsonaro e de seus filhotes que nascem e crescem, também impunes.