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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

AS CINZAS DE FHC

Silvio Prado, professor

Fernando Henrique Cardoso tem duas preocupações fundamentais. A primeira é não deixar que seu nome seja tragado pelo nome de Lula, um retirante inteligentíssimo que desceu do “Nordeste para a cidade grande” e mudou a história do país, arrombando a ditadura com as greves do ABC, no final dos anos 70 e, depois, com oito anos impecáveis à frente da presidência da República.

A segunda preocupação de Fernando Henrique é impedir que a roubalheira tucana que marcou seus anos de presidência saia dos livros especializados e se espalhe, por exemplo, pelos livros didáticos escolares. É impedir que a verdadeira história das privatizações seja contada como realmente aconteceu, o que o colocaria inquestionavelmente como o maior chefe de quadrilha da história nacional que, além de vender o patrimônio brasileiro, abriu ainda os cofres públicos para o financiamento do assalto feito por grupos internacionais.

No dia em que os escritos do economista Aloysio Biondi chegar ao mais anônimo dos brasileiros o povo perceberá que qualquer quadrilha do crime organizado que hoje atormenta o Brasil parecerá um grupo de adolescentes bobos diante dos feitos maléficos do PSDB e seu gangster maior.

A primeira preocupação de Fernando Henrique é inútil, pois a figura histórica de Lula já o engoliu faz muito tempo. Fernando Henrique não existe no imaginário popular e Lula é uma daquelas figuras que, pela força de seu significado, ajuda um país a se encontrar com sua verdadeira história e descobrir caminhos novos na direção do futuro. Lula é uma raridade histórica, produto da esperança e dos anseios coletivos, estimulador e catalisador de sonhos que semeiam pesadelos e fazem a elite brasileira dormir permanentemente sob o poder de remédios.

Quanto a segunda preocupação de Fernando Henrique, ou seja, a de esconder seus crimes, até o momento ele vem razoavelmente conseguindo êxito. O assalto que comandou permanece ainda distante dos olhos de parte da população em razão da intensa blindagem que a grande mídia rotineiramente impõe aos crimes tucanos.

E hoje, cuidadoso como ninguém, ele precisa a toda hora retocar a desgastada imagem e dar sempre um jeito de botar em Lula o figurino que cabe com perfeição apenas no tucano: o de chefe de quadrilha que, em nome da modernização do país, entregou nossas principais riquezas e só não entregou mais porque os movimentos sociais organizados não permitiram.

Portanto, hoje, todo ataque feito por Fernando Henrique contra Lula – e também contra Dilma - é uma forma de auto defesa. Ele sabe muito bem que a tendência é que seus crimes, mais cedo ou mais tarde, ganhem maior visibilidade e a imagem do sociólogo sorridente e falastrão seja substituída em definitivo pela de um ladrão poliglota, criminoso bem vestido e chegado a bons vinhos. O sociólogo tucano sabe que o avanço da democracia no Brasil passa inevitavelmente pelo esclarecimento do que foi nosso passado recente, começando pela investigação aprofundada dos crimes da ditadura militar e passando inevitavelmente por seus dois governos altamente danosos.

O tucano sabe muito bem dos prejuízos que o aprofundamento da democracia no Brasil trará a ele e seus comparsas. Por isso, atacar o PT a toda hora e desalojá-lo do governo federal são objetivos permanentes. Porém, como o discurso do golpe, devido a reação dos movimentos populares perdeu força, agora os tucanos, cinicamente, pedem uma “atitude de grandeza” para Dilma, ou seja, sua renúncia, além de tramar descaradamente uma mutreta legal que possa incriminar Lula e botá-lo na cadeia.

A grande verdade é que Fernando Henrique e o PSDB, em nome de interesses pessoais criminosos, estão brincando de alimentar uma fogueira que não vai apenas sapecá-los, mas acima de tudo transformá-los num punhado de cinzas.