Páginas

terça-feira, 22 de setembro de 2015

ANTIPEDAGÓGICO - A CRÔNICA

Silvio Prado, professor

Do camburão da ROTA que parou frente à escola desceram, rápidos e decididos, um tenente, um sargento e dois outros policiais. Na escola, entraram com a naturalidade de quem entra num sanitário público e foram direto para a sala da diretora. Esta levou o grupo de policiais ao local onde costumeiramente professores fazem suas reuniões pedagógicas. E lá estavam eles, uns trinta, todos silenciosos, cada um com suas cadernetas e respectivos planos de aula.

Auxiliado pelo sargento e os dois outros policiais, o tenente pôs se a revisar cada uma das cadernetas e planos de aulas. “Este, não! Precisa ser mudado em vários pontos”, disse ao professor de Filosofia, depois de esmiuçar atentamente seu plano de aula e se deter em cada uma das páginas das muitas cadernetas daquele educador negro, alto, que lembrava um famoso atleta brasileiro do passado. “O senhor tem muito Paulo Freire nos planos pedagógicos. Nas cadernetas está sobrando citações de trechos de obras de Marx. Um exagero. Pra que isso? ”

“Tudo o que ensinei e ensino se encaixa nos projetos oficiais do governo”, disse o acuado professor de Filosofia. “Será?”,perguntou o tenente, sem ao menos tirar os olhos de uma das provas que o mestre aplicara em algumas salas. “O que é isso, professor? Por que Antonio Gramsci em aulas do Ensino Médio?”

Minutos depois, lá estava o docente de Filosofia, agora na sala dos professores, passando seus dados pessoais e profissionais a um dos policiais que preenchia um boletim de ocorrência. Seus desvios pedagógicos foram considerados graves, portanto.

Depois que o oficial da PM avaliou o trabalho e o material apresentados por outro professor, o de Língua Portuguesa, pediu a um dos policiais que chamasse, imediatamente, reforço policial. Aquele pequeno efetivo, concluiu, não daria conta de tanta ocorrência grave.

“Que historia é essa de incluir a questão do Pinheirinho e outras desocupações de terra em aulas sobre Canudos”, foi o que o tenente inquisidor perguntou, quase enraivecido, à professora de História. “Trata-se de uma questão obvia”, respondeu a docente. O tenente não gostou de resposta tão segura e lhe pediu o livro didático que a mesma usava com os alunos. Quando ela lhe mostrou o volume de quase novecentas páginas de uma obra chamada Nova História Critica, como se tivesse sofrido um desacato, o tenente perdeu a paciência e esmurrou a mesa. “Isso é marxismo puro, minha senhora!” No ato, a velha professora foi conduzida até o local onde já estavam os que anteriormente foram inquiridos.

A chegada do reforço policial agilizou o trabalho. Dois outros oficiais se encarregaram de questionar e preencher boletins de ocorrência relacionados a diretora e sua vice. As duas professoras coordenadoras pedagógicas também não escaparam. Até o presidente da APM, tendo que deixar seu trabalho, apareceu na escola e entrou na fila para ser inquirido naquele operação surpresa da ROTA numa escola pública. Nem mesmo o presidente do grêmio estudantil ficou de fora, apesar de seus dezesseis anos e supostamente amparado pelos princípios do ECA. Seus pais, aflitos, não entenderam nada.

Aliás, muita gente não entendeu nada. Porém, os aluno do estabelecimento entenderam tudo e foram se juntando na frente da escola munidos de cartazes com dizeres críticos ao ato policial. Um megafone logo surgiu de algum lugar. Vozes decididas puxaram palavras de ordem. A população, a principio curiosa e, depois, revoltada, foi engrossando a manifestação. O trânsito acabou ficando difícil e um buzinaço ensurdecedor tomou as proximidades do local. Uns quinze minutos depois, um choque policial desembarcou de meia dúzia de grandes caminhões cinza e repetiu rigorosamente cena por cena de coisas que já acostumamos a ver em desocupações de terra, prédios públicos ocupados por sem-teto, assembleias em portas de fábricas e, com regular frequência, também vindas de um lugar muito distante chamado Faixa de Gaza.