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terça-feira, 22 de setembro de 2015

PERNILONGOS, RATOS BARATAS

Silvio Prado, professor

Como se fossem pernilongos, ratos escapando do esgoto, baratas saindo do fundo do armário, mata-se no Brasil, principalmente jovens negros. Já estamos cansados de notícias sobre chacinas na Grande São Paulo e outros tantos lugares do país. Estamos igualmente cansados de saber que os dedos que apertam os gatilhos são em grande parte encapuzados que deixaram por algumas horas suas fardas no guarda-roupa. Até quando, mesmo aqueles que tenham dívidas com a lei, serão executados por uma justiça paralela que, desafiando preceitos humanos fundamentais, humilha e extermina impondo suas penas brutais?

Não exagera quem diz que a única “política pública” consistente e regular que o Estado – em São Paulo e em todo o país - oferece aos miseráveis amontoados nas periferias sai do braço truculento e sem controle de sua polícia. O que mais o Estado oferece à população? Nada que não seja escola precarizada, desequipada e divorciada das verdadeiras necessidades populares. Nada que não seja posto de saúde com filas intermináveis e esperas criminosas. Nada que não seja descaso na área do saneamento básico ou no oferecimento de transporte público.

Qual bairro da periferia possui um centro cultural? Se houver algo parecido em algum bairro periférico de qualquer cidade brasileira, é coisa raríssima. Projeto esportivo? Só se for para justificar verbas gastas com algum figurão decadente de qualquer esporte nacional.

Para os pouquíssimos que se acham donos do país, controlam suas riquezas e faturam com a miséria alheia, pouco importa se mais de três milhões de crianças estão fora do ensino fundamental e outros cinco milhões de adolescentes vivem longe do ensino médio. O negocio dessa gente – minoria criminosa - é bem conhecido: internacionalizar o país, transferir o controle de nossas riquezas para poderosos grupos multinacionais e usufruir dos dividendos que essas medidas proporcionam.

E se dessa mesa farta caírem algumas migalhas, elas podem até ser controladamente distribuídas ao povo, não para desenvolvê-lo ou emancipá-lo, mas sim para torná-lo ainda mais submisso e escravo de uma política que há quinhentos anos precisa da resignação da maioria para manter-se na ordem do dia. Para essa minoria antinacional, o resto é bobagem. Por que um garoto pobre da periferia precisa conhecer história ou sociologia? Qual a necessidade de uma jovem negra se tornar médica pediatra? Por que um índio guarani kaiowá precisa de tanta terra se ele não produz soja para exportação? Que besteira essa de democratizar os meios de comunicação e colocar outras vozes do Brasil para falar sobre o Brasil?

Portanto, não basta colocar em prática essa política de asfixia sobre a criança e o jovem brasileiros, criando dificuldades ou cortando seus caminhos de projeção. É preciso também ter uma política que os desqualifiquem, faça cada um se sentir vagabundo e desgraçado, inúteis, inservíveis, desprovidos de todas as potencialidades que a ideologia burguesa afirma sobrar nos poderosos e vencedores. Aos revoltosos e inconformados, quando organizados para confrontar o poder e ir além das migalhas oferecidas, por que não a dureza da lei, a calúnia da mídia, o castigo exemplar sempre dado aos inimigos ou as balas das milícias abençoadas pelo Estado?

Quem não for revoltado e nem inconformado com sua miséria ou exploração diária, corre também o risco de levar seguidas porradas ou morrer do mesmo jeito. Basta ter a pele fora dos padrões escandinavos, morar fora dos condomínios e jardins seletos e um dia ter o azar de cruzar com qualquer milícia fardada (ou encapuzada) em alguma quebrada ou boteco da periferia. Basta ter jeito de pobre, vestir-se como pobre, falar como pobre, morar e existir como pobre para amargar a mesma sorte desgraçada de baratas, ratos e pernilongos.