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sábado, 31 de outubro de 2015

COVARDE VAZIO

Gabriel Tebaldi*


Obra-prima da literatura mundial, “Os sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Goethe, registrou no século XVIII verdades absolutas no mundo político: “O covarde só ameaça quando se acha em segurança”. É por detrás das blindagens que os covardes gritam, militam e dão seu show. Só a estabilidade os encoraja. E assim, sob o manto da hipocrisia lançado há três séculos, assistimos ao espetáculo das emblemáticas figuras políticas de nosso tempo.


Com o sarcasmo que lhe é típico, o escritor e jornalista Guilherme Fiúza profetiza: “No fim do século, quando estudarem a nossa época, questionarão: que tipo de substância esse povo estava tomando?”. É assustador notar que a nossa política já consumiu todos os adjetivos pejorativos possíveis, sendo, hoje, um desafio à lógica.


O que explica a figura de Eduardo Cunha no Congresso? Enquanto presidente da Câmara, Cunha manipula o regimento a seu favor, vota e barra projetos a seu bel-prazer e encabeça a lista da Lava Jato. Nas investigações, seu nome aparece em contas na Suíça que teriam movimentado R$ 23 milhões, incluindo até a esposa no esquema de corrupção.


Além dos repasses financeiros às empresas envolvidas, Cunha teria gasto

R$ 3 milhões com cartões de crédito, US$ 8 mil com cursos de inglês e ainda US$ 59 mil em cursos de tênis. Em março, porém, o presidente negou à CPI a existência de contas no exterior, o que pode ser considerado quebra de decoro. Em qualquer país decente, o deputado já teria sido afastado do cargo por simples questões morais e éticas.


Contudo, como o covarde de Goethe, Eduardo Cunha protege-se com seu cargo e blinda-se com manobras intermináveis. Em suas mãos está um trunfo ímpar: a análise dos processos de impeachment de Dilma. Diante de tal poder, Lula já pediu “cautela” ao PT nos ataques ao presidente, como se o temesse. Ao mesmo tempo, o PSDB aproximou-se de Cunha para derrubar Dilma, ignorando os escândalos do peemedebista e mostrando quão seletiva é a ética e a indignação tucana.


Enquanto a população foi às ruas pedindo justiça e respeito, o Congresso fez do impeachment uma carta de negócios que só fortaleceu a criminalidade na Câmara. Achando-se em segurança, Cunha esbravejou no último sábado: “Pode pressionar, eu não renuncio. Sem a menor chance. Podem retirar apoio, fazer o que quiserem. Não podem me tirar”. Nessa queda de braço não há bom senso ou decência; trata-se do poder pelo poder; é a representação gritante da última década: instituições corroídas por quem privatizou para si mesmo cargos, autoridade e tudo aquilo que deveria ser público.


De volta ao século XVIII, o jovem Werther constata que “encontramo-nos tão pobres, tão limitados, que nossa alma suspira por tudo aquilo que fugiu”. Em nosso caso, vivemos a fuga do assunto. Até isso os corruptos nos roubaram, tomando todos os espaços entre manchetes, colunas e acontecimentos. Os Três Poderes encontram-se prostrados diante da podridão de “suspeitos” que acusam “suspeitos” diante de provas irrefutáveis negadas sem argumentos. Enquanto isso o país afunda abandonado numa economia rebaixada, afinal, o governo anda ocupado demais protegendo seus telhados de vidro.


Chegamos ao extremo em que as provas não provam mais nada; os fatos são detalhes diante dos ideólogos, e a justiça é piada para quem personifica em si mesmo o poder. O governo acuado de Dilma vive o ridículo de tentar sustentar-se sobre o nada, batalhado apoio para não ser deposto por sua irresponsabilidade. A quem essa política representa? De que nos serve tamanha corja de colarinho branco?


Em verdade, somente a filosofia, a literatura e a riqueza do conhecimento dão conta de aliviar o mar de lama em que nadamos de braçada. E o jovem Werther, sabiamente, conclui: “Tudo nos falta quando faltamos a nós próprios”. Quando os poderosos fazem de sua existência uma medíocre luta pela sobrevivência política, é sinal de que lhes falta sentido, razão, motivo. Assim, ao som da Legião, o presente não poderia ser outro: numa terra governada pelo vazio, “só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção”.


*Gabriel Tebaldi tem 22 anos e é graduado em História pela UFES


Este texto foi publicado na edição de 29/10/15 do jornal Gazeta do Espírito Santo