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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

EX-ALUNOS - FICÇÃO OU REALIDADE?

Silvio Prado, professor

Lia olhou no relógio e viu que já passava das quinze horas. O tempo do sábado voava na direção do domingo e o corpo ainda não tinha se refeito do cansaço da semana. Lecionar em escola pública é assim mesmo. Quase sempre no sábado, quando deveria usar o tempo com qualquer outra coisa, lá está ela agora, depois de breve sono no sofá da sala, outra vez se preparando para pegar no pesado.

Sobre a mesa, umas tantas cadernetas. De um lado, centenas de provas a serem corrigidas. Do outro, um grosso volume contendo trabalhos que a cada bimestre a professora corrige. Não adianta reclamar. Terminar tudo ainda no sábado? Impossível.

De repente, toca o celular. Do outro lado da linha, é Maira, professora de Geografia que trabalha na mesma escola de Lia. Ela quer saber sobre a frequência de um aluno de uma das salas do ensino médio noturno. “É um evadido, sim”, responde.

Desligado o telefone, Lia vai à cozinha, abre a geladeira, pega uma garrafa de refrigerante, procura por um copo sobre a pia, vira o rosto na direção da janela e então dá de cara com uma dupla de encapuzados, armas na mão, já no meio do rancho e, agora, rápidos, armas apontadas na sua direção, dentro da cozinha. O copo se espatifa no chão.

A voz de um dos encapuzados é determinada: “cadê o Wellington, coroa”. “Não sei”, responde ela. “Como não sabe? Ele não é seu filho?” Um dos encapuzados, a mão grudada na arma, vai na direção de um dos quartos da casa, passa outra vez pela sala, retorna à cozinha e dessa vez pergunta onde fica o quarto do menino.

No quarto, ele se põe a revirar o que vê pela frente. Logo tudo fica irreconhecível. “É o seguinte”, grita: “a gente veio acertar contas com seu filho. Ele comprou o bagulho e não pagou. Ou a gente volta com o dinheiro, ou ele vira presunto, no ato.

Foi exatamente nessa hora que o surpreendente aconteceu e mudou o rumo da história. É que o encapuzado que ficara com a arma quase na cabeça de Lia, vendo a mesa da sala repleta de cadernetas, provas e trabalhos escolares, perguntou se ela era mesmo professora. “Sou professora, sim”, respondeu com voz trêmula. “Da Jacinto Cabral?”, perguntou o encapuzado. “Isso mesmo. Da Jacinto”. “Pois é tia, então acho que a senhora foi minha professora. Lembra de mim?”

Dizendo isso, descobriu o rosto e gritou para o companheiro que vasculhava agora o quarto de Lia: “Pode parar, poder parar. Pintou sujeira.” De imediato, o outro voltou para a cozinha e viu o parceiro com o rosto descoberto e não entendeu nada. “Não dá pra matar o filho dela não, cara. Ela foi minha professora, entendeu?”

Depois, sentados no sofá da sala, fisionomias descobertas e armas guardadas, os dois tentam se desculpar pelo ocorrido. “Tamos só cumprindo ordem, dona Lia”. Então, um deles arrancou o celular do bolso, dedilhou alguns números e falou direto com o autor da ordem, preso numa das penitenciárias da região.

“Arranja outro pra queimar o pivete, mano. Esse a gente não queima, não! A mãe dele foi professora nossa. Gente boa demais. Não vou dar essa tristeza queimando o filho dela. Manda outro fazer o serviço. Pra nós vai ser sujeira. Sujeira mesmo. Não dá, não!