Páginas

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

FELIZ DIA DO PROFESSOR!

Fabrício Peres, professor

Meu pai, que aliás era professor, sempre dizia que nunca devemos recusar um parabéns, seja ele sincero, hipócrita, irônico ou simplesmente “automático”, deve sempre ser recebido com um sorriso no rosto e retribuído, mesmo que nas piores circunstâncias, com alguma manifestação de agradecimento pelo reconhecimento ou lembrança.

Segundo ele, nunca temos certeza sobre a origem e intenção de um parabéns, sendo assim, seja pelo seu aniversário ou pela data que comemora o dia da sua categoria, agradeça as congratulações e sorria, pois o sorriso é o melhor remédio para a falta de humor, o pior castigo para os hipócritas e os irônicos e a mais justa recompensa para os que nos desejam sinceramente o bem.

Deixando de lado filosofias vazias e saudades fartas, começo lembrando que hoje, dia 15 de outubro, é dia do professor, para muitos, mais um feriado escolar e neste ano, especificamente, a possibilidade de um fim de semana prolongado ou até de uma “semana do saco cheio”, considerando a proximidade com o dia 12 de outubro. Porém, se encarado com alguma seriedade, no contexto social em que nos encontramos, esse deveria ser um importante dia para refletirmos sobre o modelo de sociedade que construímos ao longo de 5 séculos e que continuaremos construindo se não houver uma razoável mudança de paradigmas.

Entre Jesuítas, “Reformas Pombalinas”, proposições iluministas e imposições militaristas, a Educação no Brasil sempre caminhou aos trancos e barrancos, principalmente para as camadas mais populares que quase sempre tiveram os pratos vazios, as gengivas banguelas e as mentes relegadas pelos mandatários do poder público. O produto desta triste história pode ser visto e sentido até hoje, pois na atualidade ocupamos a 60ª posição no ranking educacional da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) dentre os 76 países avaliados, menos de 2% dos adolescentes concluintes da Educação Básica desejam ser professores segundo informações coletadas por um estudo encomendado pela Fundação Victor Civita (FVC) à Fundação Carlos Chagas (FCC) e nossos professores em média recebem salários 50% inferiores a profissionais com formação equivalente que atuam em outras áreas.

O conjunto de aberrações acima expostas constitui a realidade brasileira, República Federativa que consta entra as 10 maiores economias do mundo, na qual existem mais de 50 milhões de estudantes em idade escolar, sendo que a grande maioria estuda em escolas das redes públicas. Por mais que toda informação estatística, mesmo que oficial, seja digna de desconfiança, o conjunto de informações supracitadas expõe com certa confiabilidade um quadro mais do que preocupante, com especial destaque para a enorme responsabilidade do Estado relativa a baixa qualidade do “sistema educacional brasileiro”.

Infelizmente, em função de uma curta ou seletiva memória política, grande parte da população, inclusive muitos professores, tendem a responsabilizar pela degradação da Instituição Escola e do Trabalho Docente, os governos recentes e quase sempre olhando para o Executivo Federal, sendo assim é necessário e prudente lembrar que a responsabilidade pela qualidade da Educação Básica é compartilhada entre os Municípios, Estados e a União, de forma que os dois primeiros são os responsáveis diretos pela aplicação das verbas públicas, gerindo os recursos humanos e materiais que subsidiam o bom ou mau funcionamento da educação básica pública nacional.

Além de distribuir verbas e estabelecer parâmetros nacionais mínimos, pouco pode atuar o Governo Federal sobre as realidades locais, pois mesmo quando toma medidas razoavelmente expressivas, como o estabelecimento do FUNDEB (Fundo para o Desenvolvimento da Educação Básica) e do Piso Nacional dos Profissionais da Educação, acaba sendo boicotado pela falta de vontade política de grupos que não compartilham os mesmos interesses político-ideológicos.

Nacionalmente e mais especificamente em alguns Estados e Municípios, os Investimentos em Educação ainda são vistos como GASTOS, sem a adequada percepção das mudanças benéficas que somente a educação de qualidade, mantida por longo prazo, seria capaz alavancar em uma nação como um todo. Neste cenário, da Educação como GASTO PÚBLICO, alunos são vistos como massa de manobra e professores são remunerados e valorizados na proporção do seu volume enquanto categoria. Para ficar mais simples, façamos um cálculo economicamente bastante objetivo.

Se considerarmos 50 milhões de alunos, distribuídos entre a Educação Infantil e o Ensino Médio, com uma otimista média de 25 alunos por sala de aula, significa que o país precisa de 2.000.000 (dois milhões de professores), ou seja, um professor para cada 100 brasileiros aproximadamente. Número tão volumoso faz com que grande parte dos governantes aplique sobre essa categoria uma lógica tão simples quanto o cálculo acima, porém extremamente perversa. 2.000.000 de professores recebendo em média 2.000 reais por mês, desconsiderando benefícios agregados ao longo da carreira, geram GASTOS aos cofres públicos na ordem de 4.000.000.000 ( quatro bilhões) por mês, ou 48.000.000.000 (quarenta e oito) bilhões por ano, ou seja, se pagando pouco o impacto financeiro já é elevado, pagando mais ele aumenta sensivelmente.

Levando em conta que os critérios para o estabelecimento da remuneração dos professores é influenciado por características regionais, variando entre as condições econômicas e vontade política dos Estados e Municípios, o quadro fica ainda mais tenebroso, apoiando a lógica simples e perversa anteriormente citada de que UMA CATEGORIA TÃO GRANDE, INDEPENDENTEMENTE DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL OU DA RELEVÂNCIA SOCIAL, NÃO PODE SER BEM REMUNERADA POIS GERA CUSTOS FABULOSOS AO ESTADO.

Para quem acha que isso é papo de professor, entre nas escolas públicas e vivencie o ambiente, sugiro especial apreciação das Escolas Públicas do Estado de São Paulo. A Economia Porca não se aplica apenas aos salários dos professores, mas aos recursos físicos, aos quadros de apoio e a manutenção da estrutura predial.

Mas porque falar apenas de Educação Pública, se nossa constituição também comtempla e favorece a existência de Instituições Privadas de Ensino? Bem, quando tratamos do público naturalmente percebemos o reflexo sobre as redes privadas, que nivelam sua qualidade e até os padrões de remuneração a partir do que é referenciado pela rede pública.

Não é preciso ser tão bom para ser melhor do que uma educação pública medíocre, assim como não é preciso pagar muito mais aos professores para atraí-los para a rede privada, já que a rede pública paga tão mal. Apesar das exceções, essa é a realidade da maioria das escolas particulares, que atrai professores com remunerações um pouco melhores, geralmente permitindo que esses profissionais acumulem jornadas de trabalho para que possam compor uma remuneração que se aproxime de padrões economicamente dignos e socialmente não lamentáveis.

Além disso, nas escolas particulares, um outro atrativo para os professores está quase sempre presente, um ambiente de trabalho mais confortável, menos barulhento, com menor quantidade de alunos por sala, alunos que foram selecionados pelo seu poder monetário e que supostamente apresentam melhores condições culturais. Esse suposto atrativo, que nem sempre se manifesta real, acaba sendo um acalento para os professores que ainda esperam resultados efetivos a partir da sua atuação em sala de aula.

Frequentemente vemos governantes afirmando que pagar mais não garante qualidade, alegação até certo ponto considerável, porém, sem dúvida alguma pagar mal não é solução para atrair mão de obra mais qualificada. Considerando que vivemos em uma sociedade norteada pelas relações monetárias, na qual sucesso financeiro é quase sinônimo de sucesso profissional, a lógica do bem pagar para receber bons serviços é quase que inquestionável, afinal bons salários tendem a atrair bons profissionais, assim como planos de carreira mais robustos tendem a manter os profissionais mais dispostos a bem desempenhar suas atividades ao longo de sua vida profissional.

Lembro ainda que quando falamos de salário não estamos discutindo apenas o poder de consumo de uma categoria, estamos tratando de um referencial social, que marca a posição de uma categoria dentro da sociedade da qual faz parte. Frequentemente escutamos comparações do tipo, “antigamente professores ganhavam tão bem quanto médicos ou juízes”, típica comparação que toma como referência de reconhecimento social um único critério, a remuneração, como significação de importância e reconhecimento social.

Se poucos querem ser professores é porque poucos estão mais preocupados com os ideais de construção de uma sociedade mais justa e esclarecida e a grande maioria, justificadamente, afinal todos gostamos de dinheiro, está preocupada prioritariamente com os padrões financeiros que suas profissões podem lhes prover.

Sem mais, reafirmo a importância do Dia dos Professores como data simbólica para a reflexão sobre a condição desse profissional dentro da sociedade e da evolução da sociedade em função da melhoria da qualidade da Educação.
Que em um futuro próximo possamos contemplar grandes avanços Educacionais, valorização não apenas dos Professores mas de toda a estrutura humana e material envolvida no processo de Formação Educacional e que cenas de agressão contra professores e alunos, como as recentemente vistas no Paraná e em São Paulo, sejam cada vez mais raras e se possível inexistentes. Que o reconhecimento sincero consiga sobreviver além do dia 15 de outubro e que o Parabéns, principalmente vindo dos Governantes, seja traduzido em ações efetivas de melhoria das condições educacionais locais, regionais e nacionais.