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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

FINALMENTE, PARECE
QUE CHEGAMOS AO FIM

Silvio Prado, professor

Tem professor na rede estadual paulista de ensino trabalhando em até quatro escolas e em duas ou mais cidades diferentes. É uma rotina brava, desumana e despersonalizadora. Todos sabem, não há salário para compensar tanto esforço e dedicação, como também, em pouco tempo, deixa de existir saúde que suporte rotina tão estressante. Com o tempo, o desgaste vai crescendo, invadindo e corroendo a vida física e íntima do professor.

Porém, mesmo que lecionasse numa só escola, as condições materiais e pedagógicas de trabalho não permitem a manutenção ideal da saúde e nem lhe dão consistência para evitar períodos em que muitos, sem amparo algum do Estado, acabam tragados, por exemplo, pela depressão. Não há escola na rede paulista que não tenha professor ou funcionário marcados pela desgraça desse mal.

Desgastes físicos e desencantos generalizados com a profissão - ou então permanentes agressões verbais e até físicas por parte de alunos – jogam o professor nesse abismo. E sair dele é algo que se banca sozinho, com médicos particulares, remédios caríssimos, perícias médicas feitas distantes de seu local de moradia e sob o risco de ter o pedido de afastamento para cuidar da saúde recusado pelos médicos do Estado.

Portanto, ser professor sob constantes ataques destrutivos tucanos não é nada fácil. Ou ele se acomoda e vai se destruindo moralmente, perante a si mesmo e também dos alunos que percebem o desalento que o aniquila, ou então, mesmo diante de mil dificuldades, reage e procura, a partir da sala de aula, preservar a essência de sua profissão e a própria dignidade.

Nenhum professor de bom senso traz a idéia de que é possível produzir algo respeitável nesse ambiente escolar tão deteriorado, estressante, lecionando para dez ou quinze turmas com mais de quarenta alunos cada uma. Até os professores mais novos, geralmente formados sob influencia dos conceitos neoliberais que invadiram muitos cursos universitários e que estimulam besteiras como a meritocracia e o desempenho individual como solução para questões coletivas, percebem o tamanho da farsa e a impossibilidade de qualquer milagre.

A escola, da maneira como está organizada e gerenciada, não oferece futuro algum nem para o aluno e nem para o professor, em termos de realização profissional ou de preservação da própria saúde. Ela é só uma eficiente máquina de moer gente e esmagar ideais, sejam os de quem deseja ensinar ou então aprender. Há muito tempo que ela não serve mais e nada acrescenta como solução para os muitos problemas sociais enfrentados angustiosamente por todos.

Sendo o perfeito retrato do que jamais deveria ser a educação pública, a escola paulista serve apenas a dois objetivos. Inicialmente, serve, de quatro em quatro anos, como vitrine eleitoral de um governo que sempre, às vésperas das eleições, apresenta um tipo de escola-ficção com a finalidade única de ganhar votos, como já serviu a Escola da Família e, agora, mais acintosamente, serve essa coisa chamada Escola de Tempo Integral.

Depois, saindo da ficção e pisando firme na realidade, a escola paulista comandada pelo PSDB serve também para práticas permanentes típicas de um grande balcão de negócios onde atuam agentes do governo e empresas mafiosas, que enchem bolsos e cofres com dinheiro que deveria objetivamente ser destinado ao ensino. Quanto ao segundo ponto, quem tiver dúvidas, basta olhar como a tal FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação - torra anualmente os mais de três bilhões de reais que tem como orçamento.

A FDE é uma espécie de Triangulo das Bermudas onde parte do dinheiro público da educação desaparece para custear a farra de “bolsas fantasma” no ensino superior privado, compras superfaturadas de material nem sempre pedagógico, reformas de prédios escolares muitas vezes desnecessárias e também superfaturadas, etc.

Portanto, essa farsa política e pedagógica montada pelos tucanos, e que já completa 20 anos de encenação, mostra agora seu verdadeiro objetivo. Na verdade, com o recente anúncio do extermínio de 1500 escolas o governo de São Paulo tira todas as máscaras e disfarces. Nem é preciso uma lanterna acesa ao meio dia para enxergar a clareza de suas intenções: ele está se lixando pelo destino da rede pública, pela sorte do professor e pela falta de futuro programado para milhões de crianças e jovens. Alckmin, no pedestal do cinismo, convida o maior e mais rico Estado brasileiro a acelerar o passo atrás que vem sendo dado faz tempo na área educacional.

Quem conhece um pouco do ensino público de São Paulo sabe muito bem que não é de reorganização/reestruturação que a escola precisa. O que toda escola paulista precisa é ser vista e entendida como local privilegiado para se fazer educação e ajudar a produzir valores que a sociedade urgentemente reclama. Porém, todos igualmente sabem, que produzir educação não é negócio prioritário tucano. O verdadeiro e prioritário negócio tucano atende pelo nome de negociata.

Quanto aos valores éticos, que toda verdadeira educação pública pode preservar e ajudar também a criar, esses não apresentam contrapartida financeira, portanto, também não servem - e nunca servirão - para Serra, Alckmin e todos os principais atores da farsa educacional paulista.