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domingo, 25 de outubro de 2015

HOJE É DOMINGO?

Silvio Prado, professor

Sempre recebo a notícia de que é domingo pelo som quase ensurdecedor que escapa do aparelho de televisão da vizinha ao lado. Trata-se de uma missa católica cheia de cânticos e a voz de um padre falando coisas que ouvi tanto durante a infância.

Todo domingo é assim, e além da missa vinda pela tevê, sempre ouço também a voz rastejante de um dos três alcoólatras da rua sentado à beira da calçada, com sua Brahma à mão, feito café da manhã, espiando outro vizinho lavando o carro, o mesmo que um ladrão tentou levar outro dia e quase foi linchado.

Aos domingos sempre sou arrancado da cama desse jeito e logo fico sabendo o que vai se comer no almoço da casa ao lado ou qual suco outra vizinha vai tomar, quando o liquidificador for desligado e deixar o padre rezar sua missa em paz. Ou então pela gritaria de meia dúzia de netos que visitam uma avó todinha cheia de cabelos brancos.

Incansáveis, já bem de manhã, eles correm atrás de uma bola lá no fundo do quintal e podem, de repente, ter o jogo interrompido pela própria avó que não gostou de um dos palavrões ditos no correr da pelada.

É desse jeito que geralmente recebo a notícia de que estamos no domingo, um dia entre os sete da semana e considerado completamente inútil pela loucura capitalista obrigada a engolir pelo menos 24 horas sem produção intensiva e servidão voluntariamente assumida em suas fábricas e locais de tortura.

A missa, enfim, termina com a benção final do padre. Mas a vizinha, a mesma avó de cabelos brancos e de ouvidos ligados nos palavrões que os netos poderão gritar durante o jogo no fundo do quintal, insiste em avisar a todos que é domingo de fato pondo para rodar um CD do padre Zezinho, com sua voz inconfundível e numa altura que alguém pode ouvir de alguma barraca lá do Mercadão ou da Feira da Breganha.

Mas, hoje, neste domingo, diferente de todos os demais, fui acordado pela voz cheia de lágrimas de uma amiga que me ligou, lá da Bahia, pedindo atenção e socorro para superar o vazio e o desconserto trazidos pela morte de uma pessoa que nem conheço, que respirou pela última vez quase no final da madrugada e, tranquila, fechando os olhos - como se estivesse segurando a mão de um anjo exemplar -, partiu para o céu imaginário dos que suportam as misérias humanas apenas com a força da fé, deixando sobre a cama um corpo dilacerado por meses de seguidos sofrimentos. Por meia hora, ouvi um choro sem tréguas, vindo de alguém que parece ter uma parte de si mesma brutalmente arrancada e não sabe ainda o que fazer sem ela. Tudo muito intenso e dolorido!


Por incrível que pareça, hoje a vizinha idosa não ligou a tevê e não teve a missa com a rezação de sempre. Nem padre Zezinho compareceu para cantar o Um Jovem Galileu de todos os domingos. Nem as crianças apareceram para correr atrás de uma bola e gritar um e outro palavrão. O que sobrou é um silêncio meio dolorido e a sensação de que hoje nem é domingo.