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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

PEÇO DESCULPAS POR
TER AJUDADO ALCKMIN

Conheci Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho em 1981. Era meu primeiro ano como “repórter”. A primeira redação em que pisei foi a do Diário de Taubaté, no finalzinho de 1979, levado por Barbosa Filho e carinhosamente acolhido por Yára de Carvalho.

Alckmin se transforma no governador da seca e do fechamento de escolas
Acabava de ser defenestrado da General Motors, a qual servia desde 1973. Era inspetor de qualidade do recebimento da fábrica, por onde entravam porcas, parafusos, arruelas, pistões, etc, para nossa “aprovação”, antees de serem definitivamente compradas dos fornecedores.

Minha experiência como controlador de qualidade foi de pouca utilidade em meus primeiros doze meses de jornalismo. Era o perfeito imbecil jornalístico, capaz de perguntas para um político taubateano o que ele achava da Revolução dos Cravos, como se fosse a pergunta mais inteligente do mundo.

OBS: A Revolução dos Cravos, ocorrida em 1974 em Portugal, pôs fim a um regime ditatorial, adotando o parlamentarismo como forma de governo.

Voltando às vacas magras:

Estava uma noite na redação do Diário de Taubaté quando, esbaforido, chega o Zé Antonio procurando pelo Sttip Jr (diretor-fundador do jornal). Precisava de umas resmas de papel para imprimir seu jornal em Pindamonhangaba.

Estava à máquina de escrever (ainda não existiam os PCs) transcrevendo a previsão do tempo que gravava todos os dias, antes da Voz do Brasil, na Rádio Jornal do Brasil, quando os locutores de noticiário tinham que ter “vozeirão“ e uma dicção quase perfeita para serem admitidos no rádio.

Zé Antonio (nos tornamos grandes amigos depois) me convidou para trabalhar em Pindamonhangaba. Ganharia, um ano depois de minha demissão da GM, a metade do que ganhava quando era metalúgico.

Foi quando conheci o jovem prefeito de Pindamonhangaba. José Geraldo Rodrigues Alckmin Filho. Recém-formado em Medicina pela Unitau, ”Geraldinho” talvez não tivesse certeza sobre seu futuro político, mas já demonstrava habilidade para galgar postos mais altos que a de simples prefeito de uma bucólica cidade interiorana.

Posso afirmar que fui um dos responsáveis pela fama de bom administrador que Alckmin gozava no Vale do Paraíba e Litoral Norte. Era correspondente do ValeParaibano em Pindamonhangaba e acompanhava diariamente a administração do prefeito “Geraldinho”.

Do jornal, que me dava generoso espaço para falar do prefeito de Pindamonhangaba, a notícia se multiplicava rapidamente por toda a região, graças à força do rádio que, nos programas jornalísticos da manhã, reproduzia aos ouvintes as notícias sobre o prefeito “Geraldinho”, escritas por mim.

O ValeParaibano, naquela época sem televisão no Vale do Paraíba (depois vieram a Vanguarda, a Band e a Record, nesta ordem) impulsionou a carreira de Alckmin, eleito deputado estadual em 1982 com algo em torno de 100 mil votos, o dobro da população da cidade, que mal chegava às 50 mil almas.

Um fenômeno!

Eleito deputado estadual, com uma votação estrondosa, Alckmin me convidou para um novo almoço em sua casa – uma chácara que possuía nas proximidades da Dutra.

Sai do almoço assessor de imprensa do deputado recém-eleito. A nomeação só seria possível no ano seguinte, quando tomasse posse na Assembleia Legislativa.

Naquela época, a eleição era em 15 de novembro e a posse em 15 de março do ano seguinte, o que quer dize que acompanhava Alckmin em suas andanças pelo Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e Litoral Norte todos os finais de semana, entre a eleição e a posse, de graça, sem salário, mas para mim estava tudo bem.

Estava tudo bem porque Alckmin me convidava para acompanhá-lo em suas viagens, eu aceitava e nunca conversamos sobre salário ou coisa que o valha. Não o culpo por isso. Acreditava no que fazia e não me importava com a falta de dinheiro.

Após minha nomeação, comparecia na Assembleia Legislativa uma vez por mês, vou repetir, uma vez por mês, para assinar o livro de ponto e fazer jus ao meu salário.

Era correspondente do ValeParaibano na sucursal de Taubaté. Escrevia matérias sobre o mandato de Alckmin em lauda própria (modelo que copiei do jornal) e as enviava para a redação, em São José dos Campos, junto com o malote do jornal.

Jamais pedi aos editores do jornal que publicassem algum dos meus releases sobre o deputado Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho.

Três meses depois pedi demissão. Alckmin me pediu a indicação de um colega. Indiquei-lhe Barbosa Filho, mas o deputado acabou escolhendo Djalma Castro, que o assessorou por um bom tempo..

Talvez para compensar os meses que trabalhei de graça entre a eleição e a posse, Alckmin só assinou minha exoneração três meses depois que a pedi.

O tempo passou. Alckmin se elegeu deputado constituinte em 1986, novamente com votação estrondosa. Depois foi vice-governador de Mário Covas duas vezes.

No segundo mandato, Cova faleceu e Alckmin virou governador, com direito a se candidatar a governador em 2002 – uma espécie de terceiro mandato, pois fora vice-governador duas vezes e cumpriu os dois últimos anos do segundo mandato como governador.

Em 2006, veio a derrota para Lula na eleição presidencial. Voltou ao governo do Estado em 2010 e se reelegeu em 2014.

Em seu quarto mandado no governo de São Paulo, Alckmin deixa a população sem água, tenta varrer para debaixo do tapete os documentos que podem comprometer as investigações sobre o trensalão, sobre os contratos da Sabesp e os possíveis desmandos da Polícia Militar, com envolvimento de parte de seu corpo em chacinas na Capital.

Para piorar, o governo Alckmin, a título de “reorganizar” a educação paulista, está fechando escolas em todo o Estado. A EE Jacques Félix, em Taubaté, está na lista das escolas em vias de fechamento.

Peço desculpas por ter ajudado Alckmin a sair da bucólica Pindamonhangaba, que o elegeu o prefeito mais jovem do Brasil em 1976, para se transformar num decepcionante governador paulista.

Me desculpem.