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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

DIREITO DO SUBMUNDO
DA EDUCAÇÃO PAULISTA

Silvio Prado, professor

No sábado, na Secretaria da Educação, em reunião dirigida por Fernando Padula Novaes, chefe de gabinete do secretário Herman Voorwald, com dirigentes regionais de ensino de todo o estado, foram definidos os vários comportamentos que o Estado vai adotar visando durante a semana desmontar o processo de ocupação em mais de 200 escolas estaduais paulistas.

O conteúdo da reunião vazou num áudio de quarenta minutos publicado pelos Jornalistas Livres (ouça aqui: https://www.youtube.com/watch?v=68qbymS6Xvc)*, uma entidade de mídia independente que tem feito exatamente o papel que a grande imprensa se nega a fazer. O vídeo corre as redes sociais e deixa claro o que todo mundo sabe: o autoritarismo de um governo procurando colocar as ocupações como ato político visando desviar as atenções da população sobre as lambanças do governo federal.

Alckmin oscula mãos de D.Odilo Scherer: mesma sopa
Até dom Odilo Scherer, cardeal e arcebispo metropolitano de São Paulo, é citado no vídeo e aparece como uma espécie de assessor informal do governo Alckmin. Ao citar o cardeal, Fernando Padula deixa claro o desespero do governo paulista que, na surdina, busca apoio em todas as áreas sociais para conter o crescimento das ocupações.

Na reunião, a toda hora os dirigentes regionais são instruídos a desqualificar o movimento, caracterizá-lo como radical, partidário. É claro que esse discurso – que já vem sendo usado pelos burocratas do ensino – vai ser intensificado pelos dirigentes regionais. Nenhuma surpresa: dirigente regional é o tipo de funcionário de confiança que obedece a qualquer ordem e está disposto a tudo para defender seu belo salário e o emprego confortável que algum político próximo ao governador lhe deu de presente.

Nunca podemos esquecer: quem de fato oferece argumentos e dados para que o governo faça e desfaça das escolas, da educação, inclusive do professor, é essa figura política odiosa chamada dirigente regional de ensino, sempre muito bem assessorado por um bando de burocratas –geralmente ex-professores -, que não suportando e nem tendo respostas para os duros conflitos que diariamente se dão na dinâmica da escola, vão de consciência tranquila oferecer seus serviços aos que pretendem desmontar a escola pública.

Portanto, a linha de frente contra as ocupações passa pela postura dos dirigentes regionais, que atuarão (e já estão atuando) em conformidade com a policia militar, instruída para disfarçar suas intenções repressivas e fazer de conta que está diante das escolas apenas para garantir a ordem e nunca para reprimir, coisa que muitas imagens colhidas por alunos e professores nos últimos dias demonstram ser mentira.

A polícia militar de São Paulo, nesses tempos sombrios de governo tucano, nem precisa lançar spray de pimenta ou atirar balas de borracha para caracterizar seu instinto naturalmente repressivo. A simples sombra de sua farda cinza nas imediações de qualquer escola ocupada já é sinônimo de repressão. Juntamente com a escola pública que temos, esse modelo de polícia também já não serve mais.

A luta que começa a ser travada nesta segunda-feira pela manutenção e avanço das ocupações promete ser ainda mais dura que a dos dias anteriores. Pelo áudio que vazou da reunião, Padula informou que na terça-feira, amanhã, Alckmin deverá concretizar no Diário Oficial a lei que reorganiza as escolas estaduais. O governo tucano conta com o desânimo e o esvaziamento do movimento e quer criar um fato irreversível.

Porém, até agora o grande fato irreversível vem do exemplo e dos ensinamentos gerados nas duzentas escolas ocupadas: essa educação que aí está não serve mais. Junto com a escola que a engendra, ela deve ser colocada na lixeira da história, não poupando seus dirigentes regionais, o secretário e seus secretários e, acima de tudo, o governador Geraldo Alckmin. Como respeitar uma educação cujos burocratas são instruídos a mentir, a reprimir e a agir em íntima consonância com um aparelho policial que, se a opinião pública permitir, vai fazer com os jovens que ocupam escolas algo semelhante ao que foi feito com os milhares de moradores do Bairro do Pinheirinho, em 2012, em São José dos Campos?

* NOTA DA REDAÇÃO: D. Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, orienta o governador Geraldo Alckmin a fazer uma guerra de informações contra os estudantes a fim de desmobilizá-los politicamente. D. Odilo representa o atraso da igreja brasileira e foi candidato à sucessão do papa Bento XVI. Sorte do mundo é que o eleito foi o papa Francisco, um bispo progressista, preocupado com os pobres, ao contrário de D. Odilo.