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domingo, 1 de novembro de 2015

FINADOS NÃO ME COMOVE

Antonio Barbosa Filho, jornalista

Finados não me comove tanto quanto antigamente. Meu pai, minha mãe, meus avós, e muitos amigos, morreram há bastante tempo, a dor se dilui, e fica a saudade. E saudade eu sinto todos os dias, de uns e outros. Meus sentimentos não obedecem ao calendário.

Hoje, porém, comparece à minha memória (da qual é um teimoso habitante) o meu querido amigo Arnaldo Ferreira dos Santos. Médico sanitarista, sambista, bom bebedor, excelente mobilizador político, mestre da ética profissional e política, seu apelido na UFRJ era "Crioulo", o que nada continha de racista, mas muito de intimidade. Quando me perguntavam se eu o conhecia, eu dizia que "é claro: é meu irmão gêmeo", o que deixava alguns confusos por minutos, já que nossa pele era diferente. Ele era Fluminense, eu Corinthians; ele foi diretor de Harmonia da Imperatriz Leopoldinense, eu torcia pela Mangueira; ele foi pro PT, enquanto vereador, eu fiquei no PSB que eu havia fundado, até que o convenci a aderir ao meu time.

Vi seus filhos nascerem, da Márcia, querida amiga, filha do Barão, que cozinhava como ninguém. Nilópolis. Vi a separação, fiquei amigo da Miriam, segunda esposa que o acompanhou até o final. Amigos em comum, tivemos e temos muitos, do David Capistrano Filho, ao Serjão Gomes, da Ana Lacerda (que sofreu mais do que eu, porque é médica e sabia do sofrimento do Arnaldo que, para mim, disfarçava até o final) ao Audálio Dantas.

Pouco importa meu sentimento pessoal, caramba! O grave é que a ausência do Arnaldo faz da esquerda em Taubaté uma rede sem nós, uma coisa esparsa, quase personalista. Ele agregava, liderava, e esta capacidade nos foi tirada com sua morte. Arnaldo, meu irmão, não faz falta apenas a este amigo sobrevivente. Faz falta à política e ao povo mais humilde de Taubaté. Tudo se renova, e eu confio em que outros Arnaldos surgirão. Pena que não terei tempo de ver.