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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

DERROTA DE ALCKMIN,
DERROTA DA DIREITA

Silvio Prado, professor

A maioria dos estudantes que derrubaram Herman e puseram Geraldo Alckmin de joelhos teve participação ativa na histórica greve de noventa dias feita pelo magistério paulista, desencadeada em 13 de março passado. Foi exatamente nessa greve que o magistério aplicou táticas já consagradas pelo movimento operário mundial, como bloqueios de avenidas e estrada e ocupação de prédios públicos. Grandiosas passeatas geralmente saíam da Avenida Paulista – composta também por milhares de alunos - sempre acompanhadas por imensas tropas da polícia militar. Praticamente não houve confronto entre manifestantes e policiais durante aqueles dias.

Além do intenso bloqueio midiático feito pela mídia amiga, para Alckmin não interessava naquele momento qualquer coisa que significasse professor agredido, ferido ou preso. A grande greve dos professores precisava ficar anônima, não aparecer nos vídeos da casa de ninguém e, quando aparecesse, era para ser mostrada como uma greve de poucos descontentes, coisas de radicais comandados por uma APEOESP partidarizada.

Naquele momento, com a direita em ascensão e acreditando que derrubaria Dilma Houssef com um simples passeio pela Avenida Paulista, a greve tinha que ser um fato oculto, enquanto o governador, no dia 15 de março, abria as catracas do Metrô para facilitar o acesso da multidão à Paulista, que se tornou um palco verdeamarelado e de gente raivosa levantando cartazes propondo, além do impeachment da presidente, absurdos como a expulsão das ideias de Paulo Freire da escola brasileira. Não longe dali, dois bonecos apareceram dependurados num viaduto simulando o enforcamento de Dilma e Lula.

Alckmin que já há muito fingia não haver racionamento de água em São Paulo, passou a fingir também que não havia greve de professores. Depois de noventa dias de combate, da parte dos professores não havia mais forças para seguir lutando contra um governo imperial. A greve teve que ser terminada. Lagrimas brotaram nos olhos de muitos professores. No rosto dos milhares de alunos, participantes do movimento do começo ao fim, foi possível perceber a mesma frustração dos professores, porém acompanhada de uma ira explosiva.

Meses depois, o projeto de reorganização das escolas paulistas cutucou com vara curta essa ira vista no final da greve do primeiro semestre. Se os noventa dias de greve, mais o massacre sobre professores que Beto Richa (Hitlerl) fez no Paraná, obrigaram a direita brasileira a repensar seus passos, as mobilizações estudantis secundaristas recentes, envolvida por milhares de professores, por movimentos como o MTST e MST, artistas, intelectuais, jornalistas, sindicatos e até mesmo pela Gaviões da Fiel, deram um recado mais consistente aos que entendem que o Brasil é propriedade privada de meia dúzia de privilegiados.

Na verdade, a mobilização dos secundaristas mostra que existe nos bairros pobres e miseráveis da periferia uma consciência de classe que talvez nunca tenha existido na história brasileira. São milhões de jovens, a maioria desligados de partidos e até sindicatos, organizados em pequenos grupos que estão aprendendo – e também ensinando – a fazer política como deve ser feita para enfrentar brucutus e urubus do tipo Geraldo Alckmin. Entre esses jovens estão muitos que já passaram pelas mãos nunca delicadas da polícia tucana. Ou tiveram amigos, conhecidos e até parentes vitimados nas chacinas que gente encapuzada da polícia militar há anos faz na periferia da Grande São Paulo.

Essa criançada não precisa fazer curso de sociologia na USP para detectar em números o tamanho das injustiças sociais que desgraçam o Brasil. Eles a conhecem pelo uso do busão precário, pelo posto de saúde que não funciona, pelas criminosas enchentes provocadas pelas chuvas do verão, pela falta de água, deslizamentos de morros, desemprego, moradias precárias e pela escola pública tratada como coisa de segunda classe, justo ela que a ideologia burguesa apresenta como o melhor meio de ascensão para fugir da miséria e escapar da pobreza.

Pois foi nessa escola pública – o único espaço estatal que o jovem pobre pode exercer seu protagonismo – que o estúpido Geraldo Alckmin quis mexer e diminuir para enquadrá-la em seu projeto de cortes de gastos públicos. Com isso, simplesmente ele soprou o braseiro que sobrou, muito vivo, do frustrante final da greve de três meses do começo do ano. Em pouquíssimo tempo veio a reação. Mais de duzentas escolas foram tomadas e criaram um fato que em 2015 talvez só perca em importância política para o processo de impeachment da presidente Dilma.

O governador dessa vez conseguiu superar-se em sua rotineira estupidez e botou seu braço armado para bater até em frágeis alunas de quinze anos ou arrastar pelo chão professores no interior das escolas. Parece que ele não se importou em transportar para as duzentas escolas ocupadas o mesmo espetáculo trágico que seus cangaceiros fardados encenaram em 2012 no Bairro do Pinheirinho, São José dos Campos. Porém, dessa vez a pedagogia da porrada perdeu feio.

Alckmin não só recuou mas mandou seu secretario Herman arrumar as malas e sair para um passeio definitivo quando sentiu o Data Folha esfregando em sua cara a queda brutal de sua popularidade. Com Herman ou sem Herman, sua derrota se tornou um fato consumado. Na verdade, os estudantes e todo o movimento pela educação, derrotaram o mais cacifado quadro que a direita tem (ou tinha) para disputar a eleição presidencial de 2018. Tudo isso na semana em que um lamacento chamado Eduardo Cunha deflagrava o pedido de impeachment da presidente Dilma.


Tomara que a esquerda brasileira ( ou o que sobrou dela) tenha aprendido as lições dadas nos últimos dias: direitos são garantidos e democracia se aprofunda com lutas e combates de rua. Enquanto a direita adora acertos de gabinetes, os trabalhadores, está provado historicamente, decidem suas grandes questões – aos milhares ou aos milhões – sempre tomando as ruas, único local possível onde podem derrotar a burguesia e gente escrota como Geraldo Alckmin.