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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

FAMÍLIA UNIDA, ROUBA UNIDA

Silvio Prado, professor


Ele cresceu vendo o pai roubar. A mãe, mesmo moderadamente, também roubava. Os tios, ricos, também exerciam o nobre oficio. Na família parecia haver uma disputa séria. Quem melhor se esmerava nessa prática? Era difícil saber. O pai, bem velhinho, ficou espantado com a habilidade do filho e passou a assessorá-la, pois via futuro ímpar para seu melhor pupilo. Aparentemente aposentado do exercício de tão nobre arte, agora não mais se expunha e trançava os pauzinhos por debaixo do pano. Valia a pena, pois o filho demonstrou que, mesmo jovem, já havia superado o velho pai em habilidade, talento e cara de pau. O triste é que todo mundo sabia dos danos públicos causados por aquela estranha empresa familiar. Denúncias na imprensa não pegavam e ainda viravam processo pesado contra o denunciante. Promotores públicos fizeram papel de palhaço levantando minuciosamente casos de assaltos, principalmente ao dinheiro público. De nada adiantavam denúncias, pois a família que roubava unida, pelo menos em torno do roubo, permanecia unida e aprendeu como ninguém a se defender nos tribunais comprando os melhores advogados e magistrados disponíveis na praça. Mas o tempo, implacável, passou também para o pai, para a mãe, os tios, e os filhos, todos ladrões reconhecidos. Nenhum deles chegou a passear no camburão da policia civil ou federal e sempre foram visto como homens de bem e proprietários de muitos bens. Depois de mortos, veio outra recompensa. Seus nomes se espalharam pela cidade denominando ruas, praças, escolas, instituições. Também vieram biografias, todas classificando a nobre família como de trabalhadores e gente que contribuiu para o progresso da triste cidade. Mas eles roubaram, roubaram muito, muito mesmo. E dizem que, até no inferno, eles foram felizes para sempre e serviram de modelo para gerações que acreditam que o roubo, quando bem feito e profissionalizado, sempre compensa.