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domingo, 20 de dezembro de 2015

PREFEITO IMPERFEITO

Silvio Prado, professor

Um prefeito não precisa ser perfeito. Todo mundo sabe que um prefeito é um ser humano, que pode acertar e errar, cair e se levantar, porque acertar e errar, cair e levantar é próprio do ser humano.

Um prefeito hoje, bem diferente dos tempos da ditadura, escolheu ser candidato porque se achou capaz de exercer o cargo mais importante de uma cidade. Ninguém o obrigou a ser candidato. Nenhum louco pôs uma pistola na sua cabeça e o obrigou a sair debatendo os problemas da cidade, fazendo promessas, comprando votos.

Livremente ele se colocou na arena política e se apresentou como uma espécie de salvador para uma população sedenta por soluções de muitos problemas que violentam a dignidade humana. Todos os candidatos a prefeito, em qualquer cidade, se apresentam como homens de mãos limpas, passado impar, projetos e intenções belíssimas. Tudo lindo e muito redondo.

Alguns capricham tanto na propaganda que, na tevê, são confundidos com galãs das novelas globais. Os programas eleitorais são tão bem feitos e imaginativos que bem poderiam sonhar com a premiação do Oscar, principalmente no quesito efeitos especiais ou mentiras pontuais.

Em Taubaté, em 2012, tivemos um exemplo assim. Uma mega produção midiática construiu uma ficção em torno de um quarentão chamado Ortiz Junior, filho de um velho senhor ranzinza e com manias nobres e imperiais. Ex-prefeito da mesma cidade, o pai se desdobrou para dar ao filho, como se fosse um presente, um município de mais de trezentos mil habitantes. E conseguiu.

Durante a campanha, Ortiz Jr parecia encarnar esses heróis de histórias em quadrinhos. Só faltou a capa do Batman e alguns voos mirabolantes pelos céus da cidade. Por pouco quase consegue.

A sua aparência era tão retocada e perfeita como a do José Mayer, um dos galãs preferidos nas novelas globais. Cada um de seus fios de cabelo parecia ter um cabeleireiro especialmente contratado para cuidados extremamente zelosos. Fio a fio, ele era penteado e nenhum deles destoava do outro. O sorriso parecia propaganda de creme dental. Se pudesse, Jr emprestaria os músculos do Stallone só para dizer que tinha força suficiente para aguentar o tranco de administrar uma cidade como a nossa.

Suas camisas, impecáveis, vieram talvez de alguma refinada loja de algum grande centro europeu. Calças e sapatos, a mesma coisa. Enfim, Ortiz jr era Ortiz jr, o filho predileto de todos os deuses da política taubateana e paulista. Quem tocava suas mãos, não queria largá-las. Quem dele recebia o abraço, não queria fugir de seus braços. Quem olhava em seus olhos, parecia ver a luz do futuro, ali mesmo, tão pertinho e sedutora. Um produto tão acabado e perfeito que só não desceu dos céus acompanhado de anjos celestiais e trombetas tocando em toda parte porque São Pedro, velho tão ranzinza quanto Bernardo pai, não aceitou o papel e o cachê secundários que o marqueteiro quis lhe pagar. E por falar em marqueteiro, o mesmo sugeriu que Jr não soltasse sequer um pum durante a pré e a campanha eleitorais e até uma técnica americana de beijar criança pobre e não se contaminar foi lhe ensinada com sucesso. Aprendeu a caminhar sobre as águas e fez sucesso numa das enchentes que andou arrastando carros no Shopping Velho.

Porém, como toda perfeição humana traz em si a contradição da imperfeição, um dia uma revista chamada Isto É publicou uma reportagem de umas dez páginas onde o prefeituravel, se era tão perfeito assim, era exatamente porque o dinheiro que custeava aquele fantástico show eleitoral nem era dele, mas dos cofres da educação paulista onde o pai, todo poderoso, mergulhando de cabeça e bolso, realizou o velho sonho de brincar de Tio Patinhas.

Mas mesmo assim, o encanto já estava produzido e a eleição do garoto de ouro da política taubateana foi uma baba. E a justiça da região, que devia cuidar dos batedores de carteira, dos pinguços que passam a mão na bunda de mulher de respeito, dos veadinhos que andam de mãos dadas, das lesbicas que dão beijos de língua na praça Santa Teresinha, ou de jornalistas que não pagam pensão alimentícia, cismou de cuidar exatamente dele, o recentemente eleito.

E o pobre do rapaz que ganhou quase dois milhões dos cofres da FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Eleição – hoje passa pelo constrangimento de ser chamado de ladrão no bar Santa Helena e até em tribunais de Brasília. Ontem, pela tevê, um ministro sinistro exibiu um cheque criminoso de sua campanha, mesmo que o rapaz tenha feito de tudo para convencer o ministro do contrario, inclusive lhe mandando um cacho de bananas sem um pingo de agrotóxicos produzidas num lugar chamado Sitio do Bonfim.

Carretas de outras coisas saíram daqui para Brasília e o mais que conseguiram foi um pedido de vistas de um tal de Fux, que transferiu para fevereiro – talvez depois do carnaval – seu voto que pode caçar o mandato de um garoto que, onde põe a mão, sai dinheiro de um lado e bosta do outro. Como disse no início desse palavrório inútil, nenhum prefeito pode ou deve ser perfeito. Todos erram. Uns acabam transando no próprio gabinete com o chefe do gabinete ou a secretaria. Outros bebem mais cachaça do que água. Ou transformam a amante em primeira dama e permitem que a primeira dama de verdade trabalhe de taxista particular para um ex-braçal.

Enfim, ninguém é perfeito. Perfeição só existe nos programas eleitorais hollyoodianos , principalmente se eles são custeados com milhões de dinheiro vivo arrancado impiedosamente dos cofres da educação.