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domingo, 31 de janeiro de 2016

PROFESSOR ESCREVE CARTA ABERTA
AO NOVO SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO

Silvio Prado, professor

“Ao desembargador José Renato Nalini, novo Secretário da Educação de São Paulo

Desembargador José Renato Nalini, estou me esforçando para lhe dar boas vindas ao cargo de Secretário da Educação do Estado de São Paulo. Porém, não encontro jeito e nem vejo motivos para tal. Por favor, entenda, não quero ser infantil nem grosseiro, mas tenho a mania de ver as coisas como elas realmente são. Que fazer?

Portanto, como posso dar boas vindas e desejar sucesso ao novo funcionário de confiança de um governo que, em se tratando de educação pública, insiste em sucateá-la privatizando-a, desqualificando professores e funcionários e até pondo sua truculenta polícia dentro de escolas para reprimir movimentos e organizações estudantis?

Se festejei a derrubada de Herman Voorwald, não vejo como festejar sua chegada, pois até criança de colo entende que sua presença - ou de qualquer outro - como secretário não provocará alterações na destrutiva política educacional que já dura mais de vinte anos por aqui. Tem o senhor disposição para contrariar os rumos da educação paulista, hoje verdadeiro balcão de negócios onde quadrilhas travestidas de empresas mamam verbas do ensino? Quem é o novo secretário para caminhar na contramão do que deseja o governador Geraldo Alckmin?

Ora, o governador planeja fechar escolas e mais escolas, diminuir o tamanho da rede, amontoar alunos em sala de aula, desempregar professores, enfim, cortar de qualquer maneira investimentos educacionais. Será que o governador colocaria em posição tão importante alguém capaz de contrariar essa pauta destrutiva?

Mesmo sob a elegância de seus ternos “comprados semanalmente em Miami” - custeados certamente pela imoralidade de auxílios e penduricalhos que engordam salários dos burocratas da justiça -, sou obrigado a vê-lo como mais um outro seleto funcionário de confiança instalado na Praça da República apenas para cumprir e dar sequência ao programa ditado pelo Palácio dos Bandeirantes. Tolo é quem acredita que mudando o nome do secretário vai ocorrer mudança automática na política da educação. Não sou tolo e nem esperto. Sou apenas professor. Portanto, não acredito.

Particularmente, secretário Nalini, vejo que no comando da educação de São Paulo mudou apenas a maquiagem, mas o rosto continua o mesmo. Mudou o tom de voz, mas a velha mensagem segue intacta. Nada de novo vejo no cenário devastado da educação do Estado mais rico do país onde escolas funcionam até sem papel higiênico.

Como falei no início, desembargador-secretário, gostaria de dar boas vindas e até lhe desejar sucesso. No entanto, acredito ser isso impossível uma vez que no script que repousa sobre sua mesa de trabalho os papéis do professor e do Secretário da Educação já estão bem determinados e não permitem ilusões.

Sim, ilusões não são permitidas, pois numa leitura rápida do histórico das relações entre professores e secretários da educação, nós, os 250 mil professores sempre saímos perdendo. E perdemos muito!

Perdemos direitos duramente conquistados. Perdemos salário. Perdemos condições dignas de trabalho. Perdemos saúde em escolas precarizadas. Perdemos autonomia sobre nosso trabalho. Perdemos mais de três mil salas de aula e recentemente quase perdemos 97 escolas. Perdemos tempo na justiça exigindo que nossa data base seja respeitada.

Perdemos companheiros - e isso é muito cruel - que perderam a fé na educação devido aos maus tratos e descaso do governo com nosso oficio. Perdemos muito com todos os secretários anteriores, verdadeiros cães de guarda de um projeto que não esconde a verdadeira intenção: privatizar a escola pública e rifá-la aos grupos empresariais amigos do projeto geral do PSDB.

Senhor secretário, no script já mencionado, o seu principal papel é o de bombeiro louco que sai para apagar incêndio levando um carro pipa repleto de gasolina, enquanto, nas coletivas de imprensa, sempre ressalta os avanços de uma educação que só retrocede, as melhorias que só o marketing oficial enxerga, os números geralmente manipulados para enganar otário, afirmação de que greves de noventa dias não existem, elogios a merenda que nunca comeu, trata como vândalos os que fazem greve ou ocupam escolas e, para completar a tragédia, apresenta a polícia - sempre ela – como instrumento auxiliar e eficaz de seu desejo de negociação.

Por tudo isso e bem mais, vejo como impossível desejar-lhe boas vindas e sucesso. Não se trata de radicalismo da minha parte. Apenas entendo que professor que se preza não pode se dar ao luxo da inocência e nem sair dirigindo orações ao primeiro santo bem vestido que lhe apresentam. Pesa também sobre minha opinião o fato de o senhor defender privilégios de uma casta de funcionários públicos que ostentam salários desrespeitosos e nunca perde tempo em colocar seu juridiquês a serviço de privilegiados, como bem mostrou o caso Pinheirinho onde um criminoso conhecido foi favorecido pela lei, enquanto nove mil miseráveis, arrancados de suas rústicas casas, foram jogados ao relento para conhecer de perto que não é só o Diabo que administra o inferno, mas também muita gente ilustre do judiciário brasileiro.

Para completar, digo secretário Nalini, que triste ainda é a sua falta de noção em considerar a Polícia Militar paulista “a melhor polícia do mundo”, ignorando que a mesma é um viveiro de gangues encapuzadas e capaz de massacrar movimentos sociais à luz do dia.

Se o senhor não sabe, a cada três de seus mortos, dois são negros, além de mostrar o despudor de invadir escolas, arrastar professor pelo chão, bater em alunas de quinze anos e nunca ver limites para colocar em prática os ideais de guerra social embutidos nos poucos neurônios de seu chefe Alckmin, que tanto confia no desembargador e fez dele agora secretário objetivando mudanças que não alterarão em nada um projeto destrutivo que ultrapassa vinte anos de duração.

Portanto, secretário José Renato Nalini, minha conclusão é obvia, tranqüila e definitiva: a consciência me diz que é impossível qualquer vítima acenar sorridente para o seu carrasco, mesmo que ele apareça simpático e impecável tendo o corpo elegantemente coberto por roupas compradas semanalmente em Miami.