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sábado, 6 de fevereiro de 2016

ESCÂNDALO DA MERENDA:
QUAL A NOVIDADE?

Silvio Prado, professor

Quem acompanha a educação paulista sabe muito bem qual é o projeto que Geraldo Alckmin tem pare esse setor. Nos últimos meses, essa história de reorganização escolar e a proposta inicial de fechar mais de mil escolas públicas arrancou o último fiapo da máscara que em vinte anos cobriu o rosto do tucano. Os estudantes das escolas estaduais causaram um rombo político sem precedentes num governo que torra milhões de reais do ensino para garantir blindagem nos grandes meios de comunicação.

Se houvesse imprensa comprometida com investigações rotineiras em torno do governo Alckmin certamente Eduardo Cunha, no quesito corrupção, teria perdido pontos preciosos para o governador de São Paulo e estaria bem atrás do mesmo. O nunca investigado Geraldo Alckmin goza do conforto de não ter bancadas de deputados vasculhando sua administração, isso sem contar o carinho da imprensa amiga.

Porém, o tapete onde o governador sempre empurra as mutretas originárias do modo tucano de governar já não comporta tanta sujeira e acusações de corrupção. Agora, chegou a vez do escândalo que envolve fraudes na merenda colocar outro ponto obscuro e negativo num governo que parece não saber viver sem escândalos e nem distante de máfias especializadas em sugar o dinheiro da educação.

Fraudes e mutretas no mundo escolar tucano não se restringem ao cenário da merenda escolar. Elas alcançam a compra de livros, material didático ou paradidático. Elas deitam e rolam na reformas de prédios escolares. Servem também para alimentar o caixa de algumas universidades paulistas, flagradas pelo Ministério Público num esquema de bolsas para alunos fantasmas com dinheiro vindo da FDE, Fundação Para o Desenvolvimento da Educação.

Servem ainda para efetivar compras, sem licitação, de jornais e revistas e outros produtos de empresas de comunicação, como as Organizações Globo, Folha de São Paulo, Estadão e Editora Abril. Em 2014, o blog Namaria News informou que o governo de São Paulo desovou cerca de R$155 milhões nos cofres dessas empresas.

E mais: em 2012, pelo menos R$ 2 milhões saíram dos cofres da FDE para custear a campanha do candidato a prefeito de Taubaté, pelo PSDB. Na época, um amigo de Alckmin, José Bernardo Ortiz, administrava a FDE e seus R$ 3,5 bilhões de orçamento. No entanto, Bernardo Ortiz Jr, usando da prerrogativa de filho do presidente da FDE, se aproximou das máfias que atuam naquela Fundação e exigiu pelo menos 10% de todo tipo de negócios ali realizados. Porém, um dos empresários mafiosos, quando não recebeu R$ 400 mil que lhe cabia num negocio que envolveu a compra de mochilas para os alunos da rede paulistas, abriu o bico e entregou seus comparsas.

Portanto, a situação deplorável em que vivem escolas paulistas tem relação direta com essa evasão permanente de recursos que deveriam custear o ensino. Não é mentira que falte papel higiênico em escolas. Da mesma maneira não se trata de invenção a falta de materiais imprescindíveis ao trabalho do professor. Triste é saber que no estado mais rico do país os verdadeiros objetivos da educação, para satisfazer a interesses de grupos e de máfias que dela usufruem, acabam num segundo plano.

No recente caso chamado Merendão, toda a gravidade da corrupção que marca o governo tucano pode ser medida pelo fato de que um dos principais operadores do assalto aos cofres paulistas atuava numa das saletas do Palácio dos Bandeirantes, quase à sombra do governador.

Também não se pode desprezar a informação de que o ex-secretário da educação, Herman Voorwald, foi acusado de ter abocanhado R$ 100 mil para facilitar a vitória de uma empresa concorrente na licitação da merenda escolar.

Que pena que a imprensa não queira investigar de verdade e que, na Assembléia Legislativa, não haja maioria parlamentar para dissecar um governo cheio de pontos obscuros e que faz da educação um grande e rendoso balcão de negócios condenáveis.