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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TODO NEGRO É SUSPEITO,
ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO

O professor Silvio Prado faz um relato emocionante das relações dos negros com a Polícia Militar, que os veem como suspeitos em qualquer situação: parado à espera do ônibus que demora a passar pelo ponto, em grupos de dois ou três conversando amistosamente em um bar e até mesmo perto de uma igreja, onde podem ser confundidos com ladrões de sacristia.

Este relato e a fotografia, extraídas de uma página social do Facebook, são de autoria do professor Silvio Prado, que conhece bem o que é o racismo no Brasil e estuda suas raízes. De minha parte, fico cada vez mais convencido que é nos quartéis que se ensina a truculência policial.

Suspeitos

Hoje, pela manhã, um pouco depois das onze, sai aqui do Alto de São Pedro para fazer um saque na agência do Banco do Brasil, na Avenida Independência, localizada ao lado de um conhecido posto de gasolina e próxima de um ponto de táxi, que fica do outro lado da Avenida. Apressado, usei do serviço de um mototaxista, um profissional muito atencioso e cuidadoso nesse trânsito enlouquecido de Taubaté.

Saquei o dinheiro no caixa eletrônico e, fora do banco, fiquei aguardando pela pessoa que deveria recebê-lo. Essa pessoa, tendo compromisso marcado em São Paulo exatamente às 15,30 hs, ligou do celular e pediu que eu "segurasse" o mototaxista para que ele a levasse até a Dutra, no ponto próximo da churrascaria Bom Boi, pois para economizar tempo ela não queria atravessar a cidade indo até a nossa "cai não cai" e velhíssima Rodoviária Nova.

Portanto, ficamos eu e o mototaxista diante da agência do Banco do Brasil por uns quinze minutos, impacientes, aguardando a pessoa anunciada que, se atrasasse um pouco mais, certamente perderia o ônibus que sairia do terminal rodoviário ao meio dia.

De repente, chega uma viatura da polícia e dela sai um policial militar, já de arma em punho e perguntando - muito no estilo de guardião da ordem e do mundo - se "está tudo bem dentro do banco" ,despeja sobre nós seu olhar de "autoridade", confere quem é a dupla ali presente, guarda a arma, passa, entra na agência e desaparece. Um outro policial, que ficou na viatura, logo saiu do veículo, postou-se a uns cinco metros e cravou em nós seu par de olhos vigilantes.

Nesse momento a ficha caiu: um mototaxista negro e um cliente também negro, na porta de uma agência bancária, um deles inclusive conversando ao telefone, é coisa perigosa demais para o cérebro de alguns policiais. Mais uma vez na prática, conclui, que a ninguém é aconselhável ficar na linha de tiro de um policial porque nunca se sabe o tamanho do stress que o acompanha. Qualquer gesto ou palavra podem significar desafio ou afronta ao seu trabalho. Felizmente, apesar da tensão – e também da humilhação – tudo terminou como deveria terminar.

Depois do ocorrido, lembrei-me do ex-jogador de futebol fuzilado e morto recentemente por um policial num ponto de ônibus da Grande São Paulo, de madrugada, esperando sua condução para o trabalho. Confundido com um marginal, ele morreu sob as balas da polícia.

No entanto, considerando o que se ensina na Academia do Barro Branco e nas demais escolas onde se formam policiais paulistas – e também todo o stress que essa categoria acumula devido as péssimas condições de trabalho -, achei um milagre que o policial que nos abordou não tivesse saído do carro atirando.


Em tempo: o policial que desceu com a pistola na mão e nos tratou como suspeitos, como eu, o mototaxista também é negro.”

Agência do Banco do Brasil na Independência e a viatura dos policiais que abordaram o professor Silvio Prado