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quinta-feira, 10 de março de 2016

O CARROSEL E A POLÍTICA


Rodrigo Viana de Lima, professor*

Quem nunca se encantou com um carrossel em um parque de diversões itinerante? Hoje os parques itinerantes estão cada vez mais raros, estão sendo substituídos por parques fixos instalados nos shoppings.

Nossa história política é como um carrossel. Os “cavalinhos” que quebram são substituídos por “novos”, mas o carrossel não deixa de ser carrossel, sua essência permanece, e o problema é que não nos importamos com o “por quê”.

Esse “por quê” é o que move o carrossel, é o motor que faz tudo girar. Esse motor é complexo, com muitas engrenagens. Se uma engrenagem for retirada outra ocupará seu lugar para que o motor não pare.

Como todo motor, ele não é autossuficiente, ele depende de energia para funcionar e assim fazer com que o carrossel não pare. Então, o que verdadeiramente move o carrossel é a energia, se esta falhar o motor não funciona, se o motor não funcionar o carrossel para.

Não demanda de muita pesquisa para observarmos que alguns “políticos” são trocados por outros (que não estejam quebrados) durante o pleito eleitoral. No capitalismo o motor são os grandes empresários (banqueiros, industriais, agências da (des)informação, que hoje são comandadas pela Globo). Esses compõem as engrenagens do motor, trabalham em perfeita sincronia para que o motor não falhe, e cada qual cumpra sua função.

A engrenagem mais importante desse motor é representada pelas agências de (des)informação que, com um exímio trabalho de marketing, enfeitiça as pessoas ao ponto de, por exemplo, quase sentirmos o cheiro do carro novo, que está sendo apresentado na tela da televisão, fazendo com que acreditemos que o produto apresentado é essencial para nossa vida. Assim me entrego ao trabalho, consigo um financiamento e “conquisto” o produto que me foi apresentado, depois sou convencido que o produto “conquistado” com tanto suor não satisfaz minhas fruições (prazeres) porque já existe um modelo “mais completo”. Novamente me dedico ao trabalho, faço um refinanciamento e como no carrossel volto ao ponto de partida. Dessa maneira é gerada a energia que move a engrenagem principal que, por sua vez, move as outras engrenagens e por consequência juntas movem o carrossel (a vida cotidiana).

Os cidadãos ocupam posição privilegiada por estarem simultaneamente nas duas extremidades do carrossel, são eles a energia que alimenta o motor e, ao mesmo tempo, são os que tem suas fruições/desejos aguçadas, o que justifica o carrossel funcionar. Cabendo a eles decidir quando o carrossel deve parar.

Percebido esse poder, a engrenagem principal (agências da [des]informação) tratou de enfeitiçar esses cidadãos com o marketing. Se apressou em condenar quase à extinção os parques itinerantes – leia-se jornalista e mestres/professores comprometidos em informar, que buscam os “por quês” das informações – para instalá-los em shoppings onde podem ser facilmente vigiados/controlados.

Diante essa lógica dos “Tempos Modernos”, não sobra tempo para informações completas, nos contentamos com manchetes, notícias fragmentadas/manipuladas. Quais são os livros mais lidos/vendidos? Quais são os filmes mais vistos? Quais são as músicas mais ouvidas? Arrisco a afirmar, parafraseando Rubem Alves, que não são os que resgatam nossa inteligência do feitiço a que fomos submetidos.

Sonhar não custa nada
O meu sonho é tão real
Me livrei dessa magia
Era tudo que eu queria
Para uma vida real
Deixe a sua mente vagar
Não custa nada tentar
Viajar nos braços do infinito
Onde tudo é mais bonito
Longe desse mundo de ilusão
Transformar tudo em realidade
E sonhar com a mocidade
E sonhar com o pé no chão

(Samba enredo Mocidade Independente/parafrase)

Não permita que pensem por você ainda “não se paga pra sonhar”, manchete não é notícia. Resgate a criança que vive em você, não se contente com respostas fragmentadas, pergunte por que, por que e por que, até que a resposta lhe satisfaça.

Fica a dica…

*Professor de Filosofia licenciado pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo)