Páginas

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

VAMOS FAZER UM JORNAL METIDO A BESTA...

Camões Filho presta homenagem a Jorge Lemes, um dos maiores jornalistas do VP
CAMÕES FILHO*

Há 41 anos, direto do túnel do tempo, eu deixava o jornal A Tribuna de Taubaté, onde iniciara minha carreira pelas mãos dos saudosos jornalistas Djalma Castro e Dias Monteiro, para me transferir para o ValeParaibano, de São José dos Campos.

Fui para o velho VP a convite de outro saudoso jornalista, nosso mestre Bouéri Neto. Eu não queria deixar A Tribuna de jeito nenhum, jornal pelo qual tinha um carinho todo especial. O Bouéri apresentava pela Rádio Clube de São José o jornal da manhã, ao lado de outra colega que deixou saudade, o Lano Brito. Eu era o correspondente de Taubaté.

Todo dia, em off, o Bouéri – antes ou depois de minha participação – me cantava para me transferir para o VP. Como eu insistia em continuar na velha e aguerrida A Tribuna, ele lançou mão de uma tática que deu certo. Utilizou-se de um amigo em comum nosso, o José Luiz da Silva – excelente profissional e bom caráter, que é chamado com justiça de O Bom José.

O Zé Luiz me ligou durante o dia dizendo que precisava falar comigo com urgência. Marcamos um encontro em casa na noite daquele mesmo dia. E o Bom José foi direto e objetivo. Disse-me que me trazia um convite do Bouéri que eu não podia recusar de jeito algum, em nome de nossa amizade. Claro que o convite era para eu me transferir para o VP. Não tive como recusar e no dia seguinte já estava batendo ponto no ValeParaibano.

Chegar ao VP era o sonho de todo jornalista na década de 1970. O jornal tinha uma redação de responsa, como se dizia à época. Uma centena de profissionais brilhantes, algo inexistente hoje em dia até mesmo nos maiores jornais do país.

O Bouéri me acolheu como um paizão. Era meu chefe direto, como secretário de redação, o jornalista Jorge Lemes. Logo nos afeiçoamos pessoal e profissionalmente. O Jorge era uma figura. Lembro-me dele com seu entusiasmo quase juvenil, batendo os dedos de uma mão na palma de outra – seu gesto típico – e me dizendo: “Camões, vamos fazer um jornal metido a besta!

E por mais de dez anos fizemos mesmo um jornal metido a besta. Jorge Lemes, nascido em Taubaté, onde iniciara sua carreira na Rádio Difusora, cuidava do fechamento da editoria regional e tinha um carinho, uma atenção especial pelas minhas matérias, especialmente as reportagens especiais que preparávamos para as edições de domingo.

Faço essas reminiscências, pois nesta semana completa um ano que o Jorge Lemes nos deixou. No dia 15 de janeiro de 2016, Jorge Lemes partia aos 81 anos, após de uma vida bem vivida. Saudades de nossos longos papos nos botecos joseenses, após o expediente, quando falávamos de tudo e tudo praticamente se resumia a um só tema: jornal.

Lembro-me do Jorge comendo pão recheado com pimenta. Tomando uma caninha jogando-a diretamente na garganta. Tomando uma gelada e não deixando o garçom levar as garrafas vazias, que ele ia amontoando na mesa em forma de pirâmide. E, principalmente, recordo de nossa labuta na redação, as reuniões de pauta, as grandes reportagens produzidas por todos nós, sob a batuta do Jorge Lemes.

Ah, se pudesse voltar no tempo, amigo Jorge, para que a gente voltasse a fazer um jornal metido a besta.

*Camões Filho, jornalista, escritor e pedagogo, é diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.