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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ETA CAFEZINHO BOM...


Camões Filho*

Dia desses conversava com uma pessoa amiga e ela me disse que iria coar café pra gente tomar. Nossa, quanto tempo que não ouvia isso, coar café. Hoje as pessoas passam café e ainda se utilizam de filtro de papel. Café com gosto de papel é dose. Antes o café era coado no coador de pano, colocado em um bule de ágata e ficava o dia todo na chapa do fogão de lenha. As pessoas tomavam um gole de café pra fazer uma boca de pito. Hoje, nesses dias politicamente corretos, quem diz que vai fumar é escorraçado que nem os leprosos nos tempos de Cristo. Lembra da cena no filme Ben-Hur? Tal e qual.

À tardinha, toda casa exalava aquele aroma delicioso de café. As donas de casa sapecavam um bolão de fubá e outros quitutes para acompanhar. Minha mãe ainda botava na massa pedacinhos de queijo e erva doce. Meu Deus do céu, que é feito do bolão de fubá de antigamente, que tinha uma casca durinha, deliciosa, e que a gente gostava de comer fumegando de quente?

Ah, os bolinhos de chuva que encantaram minha infância, menino de calça pega-porco e que trazia no brilho de seus olhos lusco-fusco, às vezes azuis, às vezes verdes, todos os sonhos do mundo?

Eu quero de volta o fogão de lenha, o bule de café, o bolo de fubá, os bolinhos de chuva passados no açúcar com canela. Eu quero de volta aqueles dias de inocência antes que a minha hora chegue e o Camõesinho passe a ser apenas uma saudade.

Eu quero galopar meu alazão de cabo de vassoura e ir pra escola como se fosse piquenique, levando no embornal um pão dessssssse tamanho com linguiça frita.

Eu quero ver minha mãe debulhando milho e fazendo pamonha na folha de caetê. Ah, e eu quero rapar a panela com aquela colher de pau. Eu quero milho verde assado na brasa do fogão, pamonha com café – aquele, quentinho, que acabou de ser coado. E quero depois comer um naco de curau, lambuzando de gosto.

Eu quero ver meu pai chegando da roça com seu chapéu e sua bolsa de lona cáqui, que ele comprou lá na cooperativa, quando foi receber o leite que ele tirou de suas vaquinhas, colocou nos latões e que foram transportados no velho caminhão do Antenor Leiteiro.

Eu quero ouvir minha mãe contando causos de assombração, ficar vendo em cada sombra um monstro assustador e depois ir pra cama tremendo de medo, rezando pra tudo quanto é santo.

Eu quero tomar café de manhã com aquele queijo branquinho que minha mãe fez com coalho e amor e que meu pai tinha que ficar virando todo dia, até ele ficar curado.

E daí, papai do céu, tá fácil ou tá difícil?

Ah, a vida... a vida deveria ser gostosa com um cafezinho.

Eta cafezinho bom!...


*Camões Filho, jornalista, escritor e pedagogo, é membro titular da Academia Taubateana de Letras e diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. E-mail para contato com o autor: camoesfilho@bol.com.br